quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O "Poder" da União Europeia



"É preciso que os pobres sejam tão pobres que não lhes reste senão se revoltarem." - Paul Morand (1888 - 1976)

Informa-nos o Inequality Watch[1] que segundo dados referentes a 2010, cerca de 16,4% da população da União Europeia (UE) é neste momento pobre. Isto perfaz um total de 80 milhões de "cidadãos" europeus. As mulheres são as maiores vítimas de toda esta miséria, sendo 17,1% pobres, contra uma taxa de 15,7% para os homens. 

20,2% das crianças da UE com menos de 16 anos de idade vivem numa situação de pobreza. Por norma, estas crianças são oriundas de famílias que vivem em graves dificuldades financeiras e a sua mobilidade social no sentido positivo é relativamente baixa. Uma criança que nasce numa família pobre, muito difícilmente alguma vez irá ter acesso à mesma educação de qualidade de que beneficiam os meninos e meninas oriundas dos meios mais privilegiados. Uma criança que nasce pobre na UE, provavelmente irá morrer pobre.

21,6% dos jovens da UE entre os 16 e os 24 anos são pobres. A situação é alarmante se tivermos em conta que nos últimos anos aumentou drasticamente o número de jovens desempregados e precários. Nada nas actuais políticas europeias aponta para uma mudança ou inversão da situação, pelo contrário, tudo indica que a situação irá ainda piorar consideravelmente, sendo provável que termine em graves conflitos sociais e violência ou guerra civil generalizada a continuar pela actual tendência.

14,8% dos "cidadãos" da UE entre os 25 e os 49 anos são pobres e 13,5% daqueles entre os 50 e os 64 anos são pobres. Os idosos sofrem mais, sendo pobres cerca de 15,9% dos mesmos. Destes, muitos têm de optar entre comprar a comida ou os medicamentos, outros não têm dinheiro para adquirir praticamente nada e por isso limitam-se a sobreviver à custa da caridade e engrossando as filas da "sopa dos pobres" ou "sopa da humilhação" como lhe deviam chamar...

Extremamente preocupante e grave é a situação das assim-chamadas famílias monoparentais na UE. Destas, um total de 36,9% são pobres. 26% das famílias tradicionais com três ou mais filhos são pobres, assim como também são pobres 25% dos "cidadãos" que habitam sozinhos. 14,9% das famílias tradicionais com dois filhos são pobres e 11,3% dos casais sem filhos são pobres. Face a esta situação calamitosa, não é minimamente de surpreender que os "cidadãos" da "poderosa" UE tenham cada vez menos ou nenhuns filhos. A Europa está a morrer de velha, mas parece que poucos se preocupam seriamente com isso...

A pobreza é por definição uma besta humilhante. Ora, tal humilhação até se afigurava suportável se existissem razões e justificações para tal, coisa que não acontece de forma alguma. O que acontece, ao invés, é que a UE está literalmente sequestrada por uma elite demente que vive na alta luxúria e que não é capaz de "ver um palmo diante do nariz".

Basta ser-se um observador atento para se perceber em que consiste, de facto, o assim-chamado "País real" e a "Europa real". Os sem-abrigos a dormir pelas ruas das capitais da "poderosa" UE, os esfomeados e excluídos sociais a implorar por esmolas, o crescente número de desempregados e desesperados que se vão transformando em alcoólicos e toxicodependentes, as crianças a chegar com fome às escolas que cada vez ministram um ensino pior, a incompetência da justiça que nunca parece ser capaz de fazer realmente justiça, os hospitais cada vez mais sobrelotados, os bancos alimentares no limite das suas capacidades, a classe média cada vez mais asfixiada e o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior.

Esta é a verdadeira União Europeia e o verdadeiro "poder" europeu, um "poder" que serve apenas para esmagar os mais fracos, colocando-os à mercê dos especualdores selvagens e dos falcões da banca (nem as sete pragas do Egipto conseguem igualar a destruição provocada por esta gente...). Nesta "Europa real" não existem jet sets, vinhos de 500€ a garrafa e nem estadias de luxo em hotéis de cinco e seis estrelas. Existe, isso sim, a miséria, muita misériasinha que se vai espalhando e alastrando como um incêndio fora de controlo. 

A elite que entretanto ensandeceu de vez e que continua firmemente aos comandos do "sistema" (e provavelmente irá continuar aos comandos do mesmo até ser corrida a tiro e a pontapé...), parece que definitivamente perdeu por completo a noção da realidade e basta ouvir os noticiários durante alguns minutos para se chegar a tal conclusão. Tudo isto acontece porque aqueles que hoje nos (des)governam são na sua esmagadora maioria tecnocratas míopes que relegam o elemento humano e espiritual das sociedades para segundo plano ou pura e simplesmente fazem "vista grossa" aos mesmos. Esta elite europeia e europeísta comporta-se desta forma porque é ignorante e no fundo nem se poderia esperar outra coisa da mesma se tivermos em conta que esta provém maioritariamente de "berços de ouro" que lhes garantiram as "cunhas" certas para chegar a determinados cargos de poder. Não aprenderam e recusam-se a aprender com o que aconteceu em 1789 na França e em 1917 na Rússia. Enfim, a elite que se cuide enquanto ainda é tempo, caso contrário, serão os povos da Europa fartos de tanta humilhação a "cuidar" da mesma a bem ou a mal...

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Notas:
[1] INEQUALITY WATCH - Poverty in Europe: the Current Situation. Link: http://www.inequalitywatch.eu/spip.php?article99&lang=en


João José Horta Nobre
Setembro de 2014











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