quarta-feira, 27 de agosto de 2014

NUCLEOSE

Rótulo frontal do frasco de Nucleose


Rótulo traseiro do frasco de Nucleose


"A ciência compõe-se de erros, que por sua vez são passos para a verdade." - Júlio Verne (1828 - 1905)

A Nucleose[1] foi apenas uma das muitas mezinhas-medicamento que se popularizaram e tiveram o seu auge entre 1850 e 1950. Era uso e costume na época os farmacêuticos darem largas à sua imaginação de forma a produzirem as mais curiosas mistelas que posteriormente eram vendidas ao público como um "medicamento milagroso" capaz de curar e/ou evitar toda a espécie de males. 

Normalmente estes "medicamentos" não passavam de meros placebos e alguns eram mesmo bastante prejudiciais à saúde como foi o caso do infame chocolate Radium[2], outros acabaram por se transformar em sucessos universais como é o caso da Coca-Cola que também começou por ser um produto de farmácia. Difícil ou mesmo impossível é descobrir a composição da esmagadora maioria destes produtos, pois os farmacêuticos que os produziam, normalmente guardavam só para si a "fórmula secreta" ou então apenas divulgavam os componentes da sua mistela de uma forma parcial. Esta situação manteve-se até por volta de meados do século XX, altura em que a regulação estatal um pouco por todo o Ocidente começou a proibir muitas destas invenções químicas. A concorrência da cada vez mais poderosa indústria farmacêutica aliada aos avanços da ciência na segunda metade do século XX, foram "o último prego no caixão" para estes "medicamentos milagrosos" localmente produzidos por farmacêuticos que eram mais alquimistas do que outra coisa qualquer...

Sobre a composição da Nucleose nada se conhece e aqueles que a tomaram ou já faleceram ou então estão demasiado velhos para se recordar do sabor e dos possíveis efeitos da mesma. Possivelmente seria apenas um xarope vitaminado e mineralizado com algum extracto de plantas medicinais adicionado. A Nucleose terá sido criada e comercializada na farmácia de Virgílio Passos em São Brás de Alportel, algures entre 1910 e 1940. Tal como a esmagadora maioria dos produtos do mesmo género, a pequena invenção não sobreviveu à morte do seu criador e acabou por cair no esquecimento, não existindo hoje mais nenhuma prova conhecida da sua existência a não ser alguns rótulos do frasco de Nucleose que entretanto como que por milagre conseguiram sobreviver ao tempo.

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Notas:
[1] ARQUIVO DOCUMENTAL DO MUSEU DO TRAJO DE SÃO BRÁS DE ALPORTEL - Caixa António Rosa Brito.
[2] O Radium foi um chocolate com um alegado "poder de rejuvenação" produzido na Alemanha pela empresa Burk & Braun entre 1931 e 1936. Elaborado com rádio que na época era considerado por muitos como sendo um produto "terapêutico", não tardou para que os efeitos nefastos deste metal radioactivo na saúde humana se tornassem conhecidos e obrigassem a que o chocolate tivesse de ser retirado do mercado.
 

João José Horta Nobre
Agosto de 2014



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ricardo Salgado Dá Razão a Lenine

Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924)


"Não podemos esperar chegar a lado algum se não recorrermos ao terrorismo: os especuladores têm de ser fuzilados no local. Indo ainda mais longe, deve-se de lidar com os bandidos com a mesma resolução: eles também têm de ser fuzilados no local." - Vladimir Ilitch Lenine, numa intervenção aquando de uma reunião do Presidium do Soviet de Petrogrado a 14 (27) de Janeiro de 1918

Quando Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924) - o mais misterioso e enigmático de todos os revolucionários bolcheviques - colocou em prática a sua política de "terror vermelho" a partir de 1918[1] como forma de tentar derrotar definitivamente a velha ordem burguesa, este fê-lo por estar absolutamente convencido de que a única via para derrotar o regime capitalista sequestrado por banqueiros e especuladores era a do terror de Estado sem limites nem restrições. Lenine não acreditava no Estado de Direito e por isso mesmo o suprimiu em todo o território controlado pelos bolcheviques. O Estado de Direito, ou seja, o Estado em que as acções do mesmo são fiscalizadas, reguladas e limitadas pelo Direito, não passava aos olhos de Lenine de uma encenação burguesa que visava perpetuar o poder da mesma.

Basicamente, Lenine considerava que o Estado de Direito seria sempre incapaz de erradicar a exploração burguesa. Num País-Império como a Rússia czarista em que os tribunais eram controlados por quem tinha mais dinheiro ou pertencia a famílias aristocráticas e a política funcionava a favor das elites que exploravam implacavelmente as massas mais desfavorecidas, a revolução era inevitável. O proletariado/povo russo via-se obrigado a sustentar os luxos escandalosos da decadente monarquia russa que utilizava sem hesitação os cossacos e as forças armadas para reprimir com toda a força qualquer protesto, a fome e a miséria entretanto foram criando o fermento e o terreno necessário para que surgisse um revolucionário violento e sedento de sangue como Lenine.

É necessário que se entenda que Lenine foi acima de tudo um  produto da própria brutalidade da Rússia czarista e foi a cegueira política do Czar Nicolau II que permitiu que as coisas chegassem onde chegaram na terra da boa vodka e das planícies geladas. Como quem sai aos seus não degenera, Lenine (também ele de descendência aristocrata...)[2] acabou por impor uma política de terror na Rússia Bolchevique que superou em larga escala o terror czarista. Só nas duas primeiras semanas da Revolução Bolchevique terão sido executadas mais pessoas do que em todo o século XIX pelo regime czarista. Séculos de exploração e injustiça social acabam sempre por descambar neste tipo de violência assassina, normalmente com episódios de terror de carácter vingativo e sádico.

O que sucedeu na Rússia a partir de Outubro de 1917 foi mais uma orgia de vingança sádica contra a velha ordem feudal e burguesa do que outra coisa qualquer. Os apelos revolucionários de Lenine não tardaram a atrair massas de jovens voluntários dispostos a esquartejar e dar de comer aos cães toda a família real russa e quaisquer outros "inimigos do povo". Séculos de injustiças e exploração feudal sem limites transformaram-se quase de um dia para o outro num ódio visceral em relação a tudo aquilo que cheirasse a czarismo ou a burguesia capitalista.

Ora, o que tem tudo isto a ver com Ricardo Salgado e a actual crise do Banco Espírito Santo?

Ontem um meu conterrâneo que nem sequer é comunista dizia-me a espumar de raiva que estava "desejando que o Partido Comunista ganhe as eleições para limpar o lixo todo deste País."

A "limpeza" a que se refere o meu conterrâneo, subentenda-se, é o extermínio físico daqueles que ele considera como sendo os responsáveis por Portugal ter chegado onde chegou. O "lixo" são como não podia deixar de ser, os banqueiros, os especuladores, os corruptos, os vendidos e restantes responsáveis pela actual tragédia nacional.

Quem me conhece sabe que eu não sou comunista, nem acredito na viabilidade económica desse sistema, tal como não acredito na viabilidade económica do neoliberalismo. Mas acredito na raiva do povo quando a vejo e nos dias que correm raiva e ódio puro às elites europeias, banqueiros e especuladores é coisa que abunda e já fervilha...

Tal como na Rússia czarista, também hoje em Portugal e na Europa os tribunais são geralmente controlados por quem tem mais dinheiro, não existe verdadeira justiça, a democracia é uma charada, o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar, a corrupção transpira por todos os poros da sociedade, as elites banham-se numa opulência escandalosa e nada parece funcionar como deve de ser. Os mais desfavorecidos e a classe média que têm progressivamente perdido os poucos direitos adquiridos que conseguiram obter à custa de muita luta e derramamento de sangue, em contrapartida, vão ganhando cada vez mais raiva e ódio contra tudo aquilo lhes cheire a burguesia. Tudo isto é a prova de que quase um século após a Revolução Bolchevique, as elites europeias nada aprenderam e nada querem aprender até ser demasiado tarde...

Desde os primórdios da sua existência, tem sido a burguesia a amassar todas as revoltas e revoluções contra si própria. Desta gente suicida nada se pode esperar a não ser o delírio e a loucura completa enquanto vivem enclausurados nas suas torres de marfim, situação esta, diga-se de passagem, que só se continuará a verificar enquanto o todo-poderoso e soberano povo/proletariado o for permitindo...

"Mas como foi possível???", assim perguntam sempre os idiotas de serviço com cara de amélias espantadas quando ocorre uma revolução sangrenta em qualquer ponto do Mundo. Pois eu sei muito bem como foi e é possível, basta moer as massas, colocá-las em "banho-maria" e esperar...

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Notas:
[1] MELGUNOV, Sergei Petrovich - The Red Terror in Russia. Hyperion Publisher, 1975.
[2] RICE, Christopher - Lenin: Portrait of a Professional Revolutionary. London, Cassel & Co, 1990. 

João José Horta Nobre
Agosto de 2014



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Fisiocracia à Luz do Século XXI - Uma Alternativa à Economia de Casino do Nosso Tempo



"O trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o desejo das riquezas; aferventa o cérebro, sobreexcita a sensibilidade, a população cresce, a concorrência é áspera, as necessidades descomedidas, infinitas as complicações económicas, e aí está sempre entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a luta dos interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades e por fim as revoluções políticas." - Eça de Queirós (1845 - 1900) in «Prosas Bárbaras»

É muito frequente nos dias de desespero e crise profunda que atravessamos haver quem julgue que não existem alternativas ao actual modelo de economia de casino que nos impuseram. As "alternativas" em constante debate na praça pública oscilam entre o extremismo neoliberal e o extremismo marxista e sim, ambas as ideologias são muito mais parecidas entre si do que à primeira vista possa parecer.

Para começar, tanto o Neoliberalismo, como o Marxismo acreditam ser possível construir uma utopia social com base em políticas económicas extremas e totalmente desfasadas da realidade social e cultural dos povos. Por outro lado, nem o Marxismo, nem o Neoliberalismo são ou alguma vez foram teorias "científicas". Ambas não passam em larga medida de meros delírios idealistas vomitados por intelectuais que viviam largamente desfasados do mundo real. As concepções económicas do Marxismo e do Neoliberalismo, na sua larga maioria nunca foram sujeitas a qualquer tipo de método científico. A somar-se a esta grave deficiência para ideologias que se afirmam como "científicas", os cânones teóricos de ambas estão pejados de erros, distorções e falsidades.

Nas últimas duas décadas assistimos à morte ideológica do Marxismo como alternativa económica viável. Porém, este fenómeno foi acompanhado de uma cada vez maior desregulação económica que beneficiou acima de tudo o alta capital e os especuladores da banca. No fundo, foi-se progressivamente criando um Mundo em que se produz dinheiro a partir do nada e muitos até julgam esta situação como sendo perfeitamente aceitável e normal. A Casino Economics tomou o Mundo de assalto e no seu rasto apenas tem deixado um mar de miseráveis condenados a viverem de baixos salários e empregos precários, isto se tiverem a sorte de não estar no desemprego crónico que actualmente se transformou num lugar-comum em muitos países da Europa.

Uma das respostas possíveis para a actual desordem económica, passa por uma releitura do conceito essêncial da fisiocracia. Os fisocratas foram quem introduziu pela primeira vez na história o conceito de "trabalho produtivo", ou seja, o trabalho que é capaz de produzir um excedente ou produto líquido. Este "trabalho produtivo" identifica-se com o "trabalho concreto" pelo simples facto de ser o único que realmente produz riqueza.

Os fisiocratas consideravam que "as terras são a única origem da riqueza" devido ao facto de aos seus olhos a agricultura ser a única actividade económica em que era possível multiplicar as subsistências e multiplicar a espécie. Por este motivo, os fisiocratas colocaram os agricultores num patamar superior da sociedade, considerando que os mesmos foram "os primeiros fundadores das sociedades civis".[1]

É óbvio que hoje este conceito económico está muito ultrapassado e a Revolução Indústrial demonstrou que a transformação fabril das matérias primas também constitui um "trabalho produtivo" gerador de riqueza. Não é por isso de bom senso querer recuperar a fisiocracia na sua plenitude, mas é de muito bom senso dar atenção ao seu aspecto teórico essêncial, ou seja, só pode existir criação de riqueza mediante trabalho produtivo e concreto. A especulação financeira está por isso automáticamente excluída como actividade económica produtora de riqueza, pois ela apenas joga com o dinheiro num "trabalho abstracto" exercido pelo especulador que não é produtivo e que constitui por isso a antítese do "trabalho concreto".

Os fisiocratas tinham como preocupação central o "crescimento económico", mas não no sentido actual baseado na especulação bolsista. O "crescimento económico" para a fisiocracia apenas poderia ser atingido mediante a produção de riqueza através do trabalho produtivo ou concreto. Curiosamente, os fisiocratas apesar de se limitarem a uma interpretação da realidade que está adaptada à França rural do século XVIII, também tinham a sua dose de idealismo e ambicionavam "transformar o Mundo" com as suas teorias.[2] Talvez, sem que nunca o tenham esperado, os mesmos ainda venham a ser ressuscitados para nos ajudar a curar dos males económicos do nosso tempo...

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Notas:
[1] NUNES, A. J. Avelãs - Noção e Objecto da Economia Política. Almedina, Coimbra, Janeiro de 2006. pp. 15-18
[2] MYRDAL, Gunnar - Aspectos Políticos da Teoria Económica. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1985.


João José Horta Nobre
Agosto de 2014



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