sexta-feira, 18 de julho de 2014

Banqueiros - O Excremento da Humanidade



"Um banqueiro é um homem que te empresta o chapéu de chuva quando faz sol e que to tira quando começa a chover." - Mark Twain (1835 - 1910)

Chegámos hoje a um momento na história em que se torna não apenas justo, mas absolutamente obrigatório, denunciar a banca e os banqueiros em geral e reconhecer que estes se transformaram naquilo que a natureza humana tem de pior. Aliás, se Satanás possuir um servo fiel na terra, esse servo só poderá ser o banqueiro, pois as suas acções apenas têm (quase) desde sempre demonstrado perfídia e maldade sem limites.

A Pátria do banqueiro são as suas contas bancárias, o seu Deus é o Deus Mammon e a sua fidelidade é apenas para com o regime político que melhor o servir num determinado momento histórico. Não é necessário entrar em casos particulares ou citar nomes, pois o cenário dantesco repete-se de forma cíclica e contínua. Em todas as crises, guerras e revoluções desde 1789, poderão sempre encontrar uma "mão invisível" (e muito pouco limpa...) que pertence a algum banqueiro ou grupo de banqueiros.

Quando ouço os liberalóides fanáticos, os sempre auto-proclamados "defensores da liberdade económica" a defender banqueiros, baseando a sua defesa em argumentos pseudo-científicos que lhes foram martelados na cabeça numa qualquer faculdade de economia, ocorre-me sempre a dúvida: será que defendem a canalha bancária porque fazem parte da mesma ou será que são apenas estúpidos e ignorantes? 

Mas mais grave ainda do que isto é ouvir alguns ditos "patriotas" e "cristãos" da direitinha do copinho de leite a defenderem a banca com unhas e dentes. A essa casta refinada de filhos da mãe (não lhes chamo filhos da puta para não ofender a memória das suas mães...) só desejo que nunca lhes falte a sopinha quente na mesa como neste momento falta a muitos nossos compatriotas.

Os bancos são peças essências ao funcionamento de uma economia, mas não nos actuais moldes desprovidos de ética e respeito pelos princípios mais basilares da dignidade humana. Os banqueiros hoje não são parecidos a uma máfia como alguns afirmam, eles são A Máfia. Reúnem-se secretamente, têm a capacidade de eliminar ou destruir inimigos com um estalo de dedos, estão organizados de forma a contornar ao máximo a legislação pátria e quando não conseguem encontrar os famosos "buracos na lei", contratam poderosas sociedades de advogados e subornam políticos que se encarregam de fazer surgir esses "buracos". Toda a engrenagem política do centro-esquerda ao centro-direita está hoje ao serviço da banca e dos interesses obscuros da mesma. Nada de bom poderá vir desta vil gente...

Dauphin-Meunier afirmou em La Doctrine Économique de l'Église que:

"O capitalismo burguês ignorou deliberadamente a pessoa humana: regime amoral, sacrificou a pessoa dos assalariados, considerados como simples rodas da actividade económica, e também a dos empresários menos aptos a enfrentar uma concorrência implacável. O desemprego de uns, a falência dos outros, parecem a própria condição da vitalidade do sistema."

A peça central de toda esta miséria é a figura do banqueiro em conjunto com a elite que o rodeia e que parece ter vindo directamente das profundezas do inferno. Apenas alguém que padeça de uma grave miopia mental é que não percebe hoje que os banqueiros da nossa economia de casino se transformaram no excremento da humanidade. Um excremento odiado por quase todos, inútil e parasitário. Urge que se purge tamanho inimigo do seio da nossa ordem económica e social, caso contrário, continuaremos a caminhar rumo a uma distopia tecnocrática pior do que o mais tenebroso dos nossos pesadelos...

João José Horta Nobre
Julho de 2014





terça-feira, 15 de julho de 2014

O Inaudito Génio de Teixeira de Pacoaes em a "Arte de Ser Português"





"O Português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam." - Teixeira de Pascoaes (1877 - 1952)

A Arte de Ser Português não é uma obra para principiantes, trata-se de uma fina substância literária que exige um prévio conhecimento relativamente sólido no campo da história e cultura portuguesas, tudo encimado por uma vasta noção orgânica - isto talvez até seja o mais importante - da mentalidade e psicologia social portuguesas.

O génio de Pascoaes é inaudito pelos simples facto de não existir nenhum outro vulto da cultura portuguesa que se assemelhe em estilo ou substância à mensagem que este nos quer transmitir. Fervorosamente nacionalista, Teixeira de Pacoaes foi o pensador português que mais contributos deu para o desenvolvimento de um nacionalismo místico e espiritual genuinamente português. Pascoaes acabou por inventar um novo Portugal nas suas visões expressas em a Arte de Ser Português. Porém, este novo Portugal não existia - nem nunca existiu - a não ser na fértil imaginação de Pascoaes que idealizava uma nação composta por características sócio-culturais que só a ele pertenciam. O maior erro de Pascoaes terá sido talvez o de nunca se ter apercebido de que o seu Portugal ideal não passava de uma invenção sua.

A "alma pátria", elemento importantíssimo para se compreender a noção mística e espiritual que Pascoaes tinha da Nação Portuguesa, deveria de ser ressuscitada através da leitura da sua obra de forma a que pudessem nascer "bons portugueses" dignos desse nome. Repare-se que este suposto nascimento a que alude Pascoaes não é no sentido literal, mas no sentido de um despertar espiritual da Nação Portuguesa.

Teixeira de Pascoaes considerava que a Arte de Ser Português era uma obra que encerrava em si não um valor literário de alta importância, mas sim, verdades que ele julgava como sendo inalienáveis ao povo português. Por este motivo, para Pascoaes, a sua obra deveria de ser estudada e comentada nos cursos de Literatura e História Nacional, considerando o mesmo que se poderia ainda criar um novo curso de liceu baseado exclusivamente nas matérias tratadas no seu livro, pois este abordava sinteticamente as matérias que eram tratadas em quase todos os cursos de liceu da época.[1] A Arte de Ser Português foi escrita com o objectivo declarado de ser uma obra pedagógica para educar a Nação Portuguesa no sentido de a auxiliar a "reencontrar" as características que definem Portugal e os seus habitantes.

Para Pascoaes, ser-se português não era apenas uma arte no sentido tradicional do termo, mas sim, uma arte de grande alcance nacional e por esse mesmo motivo digna de cultura. O objectivo declarado da Arte de Ser Português é iniciar um movimento patriótico com vista a obter a "renascença de Portugal" que no entender de Pascoaes só seria possível através da reintegração do povo português no carácter que por tradição e herança lhe pertence. Pascoaes não deixa, porém, de ter em conta que uma tal "renascença de Portugal" seria apenas possível se os portugueses adquirissem uma nova actividade no domínio moral e social, devendo esta por sua vez ser subordinada a um objectivo comum de ordem superior.[2]

As Descobertas foram para Pascoaes o início da obra do povo português e este não deixa de ser crítico ao considerar que desde então os portugueses como que adormeceram, tendo deixado a Nação cair num estado de decadência generalizada.

Pascoaes dedica um considerável esforço a caracterizar e descrever as características daquilo que ele considera ser a "raça portuguesa”, entendida não apenas no conceito antropológico próprio da época do autor, mas também no da dimensão espiritual dessa “raça” que segundo o mesmo possui qualidades espirituais únicas e bastante distintas de outros povos. Para Pascoaes, o conceito de "raça" é acima de tudo um conceito místico e espiritual que se define por constituir “um certo número de qualidades electivas, (num sentido superior) próprias de um Povo, organizado em Pátria, isto é, independente, sob o ponto de vista político e moral.”[3]
 
Para Pascoaes uma “raça” possui as características de um ser vivo e como tal a devemos considerar.[4] O carácter é a expressão total das qualidades de uma “raça” que são conservadas e transmitidas pela herança e tradição que definem a mesma.[5] Seguindo a lógica de Pacoaes, Portugal constitui o berço de uma “raça”, a "raça portuguesa", pelo facto de existir uma língua comum para todos os seus habitantes, uma literatura comum, uma história comum e uma actividade moral comum. No entanto, Pascoaes destaca que destes factores os mais importantes são a língua e a história nacionais.[6] Portugal também é simultâneamente uma Pátria porque é uma “raça” politicamente independente e senhora do seu destino.[7] As Descobertas não foram para Pascoaes uma obra peninsular, mas sim uma obra exclusivamente portuguesa e fruto da iniciativa aventureira que caracteriza a “raça portuguesa”.[8]

O conceito de Pátria formulado por Teixeira de Pascoaes é um conceito espiritual e que está intimamente ligado à própria Humanidade. No entanto, é necessário ter-se em conta que Teixeira de Pascoaes não é um supra-nacionalista, ou seja, Teixeira de Pascoaes não concebe a Nação ou Pátria apenas como um meio para o internacionalismo que visa aniquilar as nações, reduzindo as mesmas a um mero conceito abstracto. Bem pelo contrário, para Pascoaes a Pátria está para a Humanidade como o indivíduo está para a sociedade. Tentar destruir a Pátria é um absurdo, pois tal seria tornar os homens todos iguais, colocando-os a todos dentro da mesma fórmula jurídica. Pascoaes considera mesmo que “a lei escrita não pode revogar o que a vida legislou”.[9]

No campo da família, Pascoaes considera o casamento como uma instituição que para além de ser um acto religioso, deve ser também um acto de sacrifício para com os filhos, ao invés de ser um acto de egoísmo, sensualidade e dissolvência.[10] Do ponto de vista político, foi por intermédio da vida municipal que entre nós a família começou a existir politicamente.[11] Por este mesmo motivo, imediatamente a seguir aos deveres da família, o "bom português" deverá cumprir sempre os seus deveres de "munícipe".

O município constitui para Pascoaes “um certo número de famílias casadas pela paisagem, por alguns laços de sangue e ainda por interesses económicos e uma tradição histórica e religiosa”.[12] Pascoaes relega assim para segundo plano a origem latina e os fins colonizadores que o município teve originariamente.[13]

O munícipe exemplar concebido por Pacoaes deve compreender e conhecer e história do seu município, através do estudo das suas características especiais na economia, na linguagem, na paisagem, etc… para que possa compreender melhor as suas aspirações de progresso.[14] Este “bom português” deve cultivar em si o patriota, que abrange o indivíduo, o pai e o munícipe e os excede, criando assim um novo ser espiritual mais complexo, caracterizado por uma profunda lembrança étnica e histórica e um profundo desejo concordante que será a repercussão sublimada no futuro da voz secular daquela herança ou lembrança.[15]

Teixeira de Pascoaes dá uma atenção particular à “alma pátria” e à origem da mesma. Esta "alma pátria" ou “alma lusíada” terá tido a sua origem na fusão dos antigos povos que habitaram a península e na paisagem portuguesa.[16]

Pascoaes manifesta também uma evidente preocupação em relação à natureza das relações do homem para com a paisagem que o envolve, podendo mesmo considerar-se que há profundas preocupações ecológicas na sua obra. A sacralização da natureza levada a cabo pelo autor, determina uma relação de profundo respeito do homem pela paisagem e o cuidado com a sua preservação. É na região de Entre-Douro-e-Minho, que Pascoaes considera que o Portugal de terra se exibe em alto e nítido relevo. É portanto nesta região que o escriba da Arte de Ser Português considera que devemos de estudar a paisagem como uma fonte psíquica da “raça portuguesa”.[17]

“O doloroso drama transmontano e o bucólico idílio minhoto, fundem-se, na região do Tâmega, numa paisagem original que é o próprio busto panteísta do génio dos lusíadas”.[18]

Para Pascoaes, se exceptuarmos as planícies do Alentejo, monótonas e como que adormecidas num antigo e vago sonho mourisco, e os desnudos planaltos transmontanos de uma hostil e amarela aridez judaica, a paisagem portuguesa é quase toda igual àquela que é banhada pelo Tâmega.[19] A paisagem representa um grande papel na nossa existência como portugueses, pois ela tem sobre nós um poder de herança, igual ao dos fantasmas avoengos.[20]

Pascoaes considera que o verdadeiro significado da palavra sangue é herança. Os glóbulos vermelhos carregam dentro da sua microscópica esfera, antigos espectros que ressurgem e vão definindo continuadamente o carácter dos indivíduos e dos povos.[21] É no sangue que gritam velhas tragédias, murmuram velhos sonhos, velhos diálogos com Deus e com a terra, esperanças, desilusões, terrores e heroísmos que desenham em tintas vivas o cenário e a acção das nossas almas.[22] O sangue é a memória e este contém em si a presença de fantasmas que nos dominam e dirigem.[23] Há um diálogo misterioso entre a voz da terra e a voz do sangue e é este diálogo que revela os verdadeiros caracteres da nossa íntima fisionomia portuguesa.[24]

A Península Ibérica foi anteriormente habitada por diversos povos de que descendem os actuais castelhanos, bascos, andaluzes, galegos, catalães, portugueses, etc…[25] Os referidos povos, pertenciam de acordo com Pascoaes, a dois ramos étnicos distintos e diferenciados entre si por estigmas de natureza física e moral.[26]

Um destes ramos é o “Ariano” e o outro é o “Semita”. O ramo “Ariano” criou a civilização greco-romana, o culto plástico da forma, a beleza concebida dentro da realidade próxima e tangível, o Paganismo. O ramo “Semita”, por sua vez, deu origem à civilização Judaica, à Bíblia, ao culto do Espírito, à unidade divina e à beleza concebida para além da matéria.[27] A Deusa Vénus constitui a suprema flor do Naturalismo grego, sendo a Virgem Dolorosa a suprema flor do Espiritualismo Cristão. A primeira simboliza o amor carnal que continua a vida, a segunda simboliza o amor ideal que a purifica e diviniza.[28]

O ramo “Ariano” trouxe à Ibéria o Naturalismo enquanto que o “Semita” nos legou o Espiritualismo.[29] Foram os povos destes dois ramos étnicos tão distintos que se misturaram na Península Ibérica através da miscigenação dando assim origem às Nacionalidades que Castela submeteu à sua hegemonia com a excepção de Portugal.[30]

De acordo com Pascoaes, o sangue “Ariano” e o sangue “Semita”
 
“equivalendo-se em energia transmissora de heranças, deram à “raça” lusitana as suas próprias qualidades superiores, que, em vez de se contradizerem – pelo contrário – se combinaram amorosamente, unificando-se na bela criação da alma pátria”.[31]

Para Teixeira de Pascoaes o escritor português é muito mais espontâneo e emotivo do que intelectual.[32] É na poesia que aparece a alma de um Povo, no que ela tem de mais profundo e misterioso.[33] O poeta é para Pascoaes o escultor espiritual de uma Pátria, o revelador-criador do seu carácter em mármore eterno de harmonia.[34]

Pascoaes considera ainda que a obra portuguesa mais representativa da "raça portuguesa" é o Cancioneiro Popular. Esta obra não é apenas uma obra satírica e amorosa como muitos a têm considerado, ela é antes de mais uma obra religiosa, anunciando o nosso misticismo panteísta.[35]

O Cancioneiro Popular, apesar de ser pobre do ponto de vista estritamente poético, representa a maior riqueza de poesia que Portugal possui. Nele estão perpétuadas de acordo com Pascoaes a "alma pátria" que pelo seu estudo pode dar origem ao renascimento de Portugal. É a partir desta "alma pátria" que nasce o romance, o poema, a tragédia, o drama, a filosofia, a estátua e a lei do Estado. O Cancioneiro Popular em conjunto com a obra de Camões constituiem os dois fundamentos indestrutíveis da “raça portuguesa".[36]

O "idealismo saudoso" no qual se funde o espírito e a matéria, a vida e a morte, é o nosso próprio misticismo, a essência do Cristianismo português.[37] O pensamento de Teixeira de Pascoaes manifesta assim uma particular forma de religiosidade, que provém desde logo desta presença de Deus na natureza e da sua evidenciação nela. O autor concebe uma ordem na natureza, um princípio teleológico alheio ao acaso que deixa supor uma inteligência ordenadora que presida às transformações da realidade. Segundo esta concepção, o esforço humano será para penetrar o Mistério da vida e do cosmos.[38]

Na língua portuguesa há todo um conjunto de vocábulos altamente expressivos sobre o que a nossa sensibilidade possui de mais íntimo e característico e por isso sem equivalentes nas outras línguas. Porém, Pascoais considera que há uma palavra que é animada pelos dois princípios religiosos que definem a alma pátria, esta é a palavra Saudade.

A Saudade para Pascoaes, transcende o mero sentimento individual, para assumir uma dimensão ontológica e metafísica. Na mesma medida em que todo o Universo "é a expressão cósmica da saudade" enquanto "infinita lembrança da esperança", a Saudade psicológica e individual, assume, enquanto o homem partilha a condição do mundo, uma dimensão metafísica. Enquanto o homem como um ser finito e imperfeito aspira à perfeição de ser, a Saudade assume uma dimensão ontológica.[39]

Pelo desejo e pela dor, a Saudade representa o sangue e a terra de que transcende a nossa “raça”.[40] Foi na Saudade que arianos e semitas encontraram a sua divina síntese espiritual.[41] A Saudade pelo desejo, em virtude da própria natureza do desejo, é também a esperança, assim como é “lembrança” pela dor.[42]

A Saudade encarada do ponto de vista existencial leva o autor a conceber a natureza como sagrada, uma vez que a Saudade do mundo é também a Saudade de Deus, de um Deus presente nas próprias coisas. É a divindade que se apropria de si mesma na evolução da natureza, pelo que Pascoaes postula a sacralização da mesma natureza. Deus existe antes e independentemente do homem; no entanto a vida confere-lha o próprio homem.[43]

O pensamento de Teixeira de Pascoaes manifesta assim uma particular forma de religiosidade, que provém desde logo desta presença de Deus na natureza e da sua evidenciação nela. O autor concebe uma ordem na natureza, um princípio teleológico alheio ao acaso que deixa supor uma inteligência ordenadora que presida às transformações da realidade. Nesta lógica. todo o esforço humano será para penetrar o Mistério da vida e do cosmos.[44]

O Saudosismo manifesta ainda um carácter messiânico e profético aceitando Pascoaes o advento de uma nova "era lusíada".[45] A Saudade é também uma via para o conhecimento: por ela abre-se uma via para uma mundividência, uma concepção geral da existência. O "pensamento poético" de Teixeira de Pascoaes enforma a expressão da possibilidade de conhecimento que se abre pela via da saudade. O conhecimento poético é simultâneamente estético, metafísico e ontológico: estético porque o que lhe é próprio se conhece pelo sentimento, metafísico e ontológico porque o seu horizonte é o da verdade que manifesta um carácter transcendente.[46]

Pascoaes considera os portugueses como sendo um povo nada filósofo, pois o povo português não abrange num só golpe de vista os conhecimentos humanos, ele subordina-os a uma lógica perfeita e nova que os interpreta[47] num todo harmonioso.

O português, por natureza, não gosta de interpretar nem o mundo, nem a vida, pelo contrário, ele contenta-se em vivê-la exteriormente e tem por isso um verdadeiro horror à filosofia imaginando encontrá-la em tudo aquilo que ele não entende.[48]

A nível de Jurisprudência, Pascoaes considera que esta deriva em Portugal das leis godas e romanas e que a dos últimos tempos não passa de um cópia muito inferior de leis estrangeiras que desnatura por completo o corpo jurídico do Estado.[49]

No campo da religião o povo deve encontrar o culto religioso dos seus avós, primeiro na figura homérica de Viriato e depois em D. Afonso Henriques que Pascoaes descreve como um: “rude estatuário de uma Pátria que as últimas gerações têm mutilado”.[50]

Teixeira de Pascoaes atribuiu determinadas qualidades inegáveis à alma pátria. A primeira destas qualidades é o “espírito messiânico” dos portugueses e este é para Pascoaes o que há de mais transcendente na “personalidade lusitana”. É através deste "espírito messiânico" que compete aos portugueses realizar a missão de "renascença pátria".[51]

O “Messianismo” é portanto: 

“a espiritualização da aventura, a sua incidência religiosa no infinito, o móbil humano divinizado e individualizado superiormente; o ideal da família e pátria excedido”.[52]

Outra qualidade da “alma pátria portuguesa” é o “sentimento de independência e liberdade”. O antigo português foi livre no sentido verdadeiro da palavra. As descobertas nasceram da sua própria força criadora. Portugal foi uma nação livre enquanto foram portuguesas as suas obras; enquanto soube realizá-las, obedecendo apenas à sua vontade vitoriosa.[53]

No entanto, Pascoaes possui também um agudo sentido crítico e aponta os defeitos da “alma pátria”. O primeiro grande defeito da “alma pátria" lusitana é a “falta de persistência”. Os portugueses são um povo pouco persistente nas suas obras e por isso a obra empreendida, muitas vezes morre no seu início. A "vil tristeza" é outro defeito dos portugueses que Pascoaes destaca.[54]

Os portugueses são ainda um povo com o defeito da “inveja” e da “vaidade susceptível”, ou seja, um povo vaidoso e que se ofende com facilidade. Pascoaes destaca que este último defeito é comum aos povos que em tempos foram grandes e decaíram. Os portugueses são hoje um povo inferior e pobre, mas consideram-se ainda possuidores dos bens arruinados. Continuam a viver em sonho o seu poderio perdido.[55]

Pascoaes destaca ainda mais dois defeitos inerentes à “alma pátria” portuguesa. São estes a “intolerância” e o “espírito de imitação”, a decadência que hoje afecta o povo português destrói-lhe simultâneamente a faculdade inventiva e iniciadora.[56]

Os defeitos referidos não atingem felizmente todas as classes sociais e representam principalmente a quebra do “espírito de sacrifício” que em tempos caracterizou os portugueses e a quebra da relação entre o indivíduo e o seu destino de chefe de família e patriota.[57]
 
A Arte de Ser Português de Pascoaes, encerra em si um valor metafísico que se define por ser essencialmente uma declaração de amor incondicional a Portugal, a Pátria que o autor "defendia vibrantemente, sem concessões, numa saudade infinita e bela".[58] Pascoaes compreendeu acima de tudo que não é com um espírito derrotista e de rebaixamento que os portugueses poderão reencontrar a sua grandeza perdida. Muito pelo contrário, se Portugal quiser voltar a ser Portugal, então ele terá de recuperar o “espírito de sacrifício” e dedicação que em tempos o caracterizou. A “alma lusíada” ou "alma pátria" está adormecida e só com o seu despertar é que poderemos assistir a um renascimento de Portugal.


___________________________________________________
 

Notas: 

[1] TEIXEIRA, de Pascoaes - Arte de Ser Português. Assírio & Alvim, 3ª edição, Lisboa, 1998, pág: 5.
[2] IDEM, Op. cit., pág: 9.
[3] IDEM, ibid., pág: 10.
[4] IDEM, ibid., pág: 10.
[5] IDEM, ibid., pág: 11.
[6] IDEM, ibid., pág: 17.
[7] IDEM, ibid., pág: 20.
[8] IDEM, ibid., pág: 19.
[9] IDEM, ibid., pág: 29.
[10] IDEM, ibid., pág: 41.
[11] IDEM, ibid., pág: 42.
[12] IDEM, ibid., pág: 46.
[13] IDEM, ibid., pág: 45-46.
[14] IDEM, ibid., pág: 46.
[15] IDEM, ibid., pág: 48.
[16] IDEM, ibid., pág: 53.
[17] IDEM, ibid., pág: 53.
[18] IDEM, ibid., pág: 54.
[19] IDEM, ibid., pág: 54.
[20] IDEM, ibid., pág: 55.
[21] IDEM, ibid., pág: 55.
[22] IDEM, ibid., pág: 56.
[23] IDEM, ibid., pág: 56.
[24] IDEM, ibid., pág: 56.
[25] IDEM, ibid., pág: 56.
[26] IDEM, ibid., pág: 56.
[27] IDEM, ibid., pág: 56.
[28] IDEM, ibid., pág: 57.
[29] IDEM, ibid., pág: 57.
[30] IDEM, ibid., pág: 57.
[31] IDEM, ibid., pág: 58
[32] IDEM, ibid., pág: 67.
[33] IDEM, ibid., pág: 67.
[34] IDEM, ibid., pág: 67.
[35] IDEM, ibid., pág: 68.
[36] IDEM, ibid., pág: 70.
[37] IDEM, ibid., pág: 73.
[38] TEIXEIRA, Dulcineia - Teixeira de Pascoaes. Link: http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/1910a.html
[39] IDEM, Op. cit..
[40] TEIXEIRA, de Pascoaes - Op. cit., pág: 76.
[41] IDEM, ibid., pág: 76.
[42] IDEM, ibid., pág: 76.
[43] TEIXEIRA, Dulcineia, Op. cit..
[44] IDEM, ibid.
[45] IDEM, ibid.
[46] IDEM, ibid.
[47] TEIXEIRA, de Pacoaes - Op. cit., pág: 77.
[48] MOTA, Pedro Teixeira da - Teixeira de Pascoaes. Link: http://fundacaomaitreya.com/artigo.php?ida=428
[49] TEIXEIRA, de Pascoaes - Op. cit., pág: 78.
[50] IDEM, ibid., pág: 83.
[51] IDEM, ibid., pág: 91.
[52] IDEM, ibid., pág: 91
[53] IDEM, ibid., pág: 92.
[54] IDEM, ibid., pág: 99-100.
[55] IDEM, ibid., pág: 101.
[56] IDEM, ibid., pág: 103-104.
[57] IDEM, ibid., pág: 104.
[58] REVISTA SOTAQUES - Arte de Ser Português. 08 de Novembro de 2012. Link: http://sotaquesbrasilportugal.wordpress.com/2012/11/08/arte-de-ser-portugues/


João José Horta Nobre
Julho de 2014



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