domingo, 29 de setembro de 2013

Saudades da União Soviética...





"Os nossos foguetes espaciais conseguem encontrar o Cometa de Halley e voam até Vénus com uma pontaria espantosa, mas a par destes triunfos científicos e tecnológicos está uma clara falta de eficiência na utilização das conquistas científicas para fins económicos, e muitos dos objectos do dia a dia nos lares soviéticos são de pobre qualidade." - Mikhail Gorbachev in "Perestroika: New Thinking For Our Country and The World" (1987)

Dizia-me há dias uma amiga russa de São Petersburgo que "tinha saudades da União Soviética". Isto porque a "vida era mais fácil", "não havia drogas nas ruas", "todos tinham emprego", etc... 

Confesso que não é a primeira vez que me deparo com pessoas da Europa de Leste (apesar de serem uma minoria) que sentem saudades dos velhos tempos de chumbo da bota cardada do "camarada" Lenine. Não me é dificíl de compreender este sentimento de nostalgia. A Rússia passou por uma verdadeira humilhação durante a década de 1990, quando o Presidente Ieltsin (um alcóolico viciado em Vodka...) encetou um processo de privatizações verdadeiramente desastroso, que levou à entrega de muitas empresas estatais a grupos económicos duvidosos ao preço da chuva.

O desemprego, a miséria, a toxicodependência, o alcoolismo, as máfias, a redução do nível de vida e da esperança média de vida, tudo isto foram factores que levaram muitos russos a perderem a esperança no Capitalismo que muitos haviam defendido com unhas e dentes em 1991 quando a União Soviética implodiu.

Para um povo que estava habituado a ter serviços de saúde gratuitos, emprego garantido, habitação e educação gratuita, o Comunismo não tardou a surgir na memória de muitos russos como um "mundo dourado" que haviam trágicamente perdido. Muitos sentiram-se terrivelmente enganados e atendendo às trágicas circunstâncias económico-sociais da época, isto é mais do que compreensível.

É verdade que não existia prosperidade na União Soviética, mas havia segurança e estabilidade. Em 1991, tudo isto ruiu como se de uma castelo de cartas se tratasse. As minorias étnicas da União Soviética, brutalmente subjugadas durante quase todo o século XX, foram quem mais beneficiou com o colapso soviético. Os russos, ao invés, foram os mais prejudicados e por isso, é precisamente entre a população etnicamente russa que se podem encontrar mais saudosistas da União Soviética.

O que infelizmente muitos russos como a minha amiga não compreendem é que o sistema soviético era economicamente insustentável sob qualquer ponto de vista. Logo em 1922, ainda a Revolução Russa era jovem e já o economista Ludwig von Mises avisava sobre o "problema do cálculo económico" na obra Socialism: An Economic and Sociological Analysis.

O problema do cálculo económico foi a derradeira causa do falhanço do comunismo soviético e de todos os modelos socialistas ensaiados até hoje no mundo. Por este simples motivo é que me espanta que economistas como o Dr. Francisco Louçã possam realmente acreditar no que dizem.

O mercado livre (algo que existe desde as origens da própria Civilização...) é essencial para permitir a formação de preços. Sem esta formação de preços, torna-se impossível calcular com precisão o preço de um determinado produto. Na União Soviética era o Estado soviético que calculava os preços de todos os bens, algo que só por si é ultra-complexo em termos burocráticos e por isso mesmo é que o Socialismo acaba sempre por se reduzir a um flop em termos económicos.

Para exemplificar isto melhor, o leitor imagine que tem um talho. Como vai calcular o preço dos produtos que vende no talho? Será através da velhinha e básica lei da oferta e da procura. Quanto maior a procura e menor a oferta, mais elevado será o preço de um determinado produto e vice-versa. Isto significa simplesmente que é o mercado livre que vai determinar o preço dos produtos vendidos no talho. 

Ora, num sistema socialista o mercado livre é suprimido, logo, deixamos de ter esse mecanismo para calcular o preço de um produto e passa a ser o Estado a ter de calcular artificialmente os preços de todos os produtos vendidos no seu mercado. Na teoria, tudo funciona às mil maravilhas e é essa a impressão com que ficamos quando lemos as obras de Marx. Porém, na prática isto não passa de banha da cobra, pois Karl Max ignorou propositadamente a subjectividade humana que é determinante no campo económico e constitui o motor da economia real.

Sem o mercado livre, essencial à correcta formação dos preços, não tardou para que o sistema soviético se fosse burocratizando até atingir a estagnação económica na década de 1970, estagnação essa que os líderes e economistas soviéticos nunca conseguiram resolver eficazmente, precisamente porque ela não tinha solução possível sem um mercado livre.

Para se ter uma ideia desta burocracia, o leitor imagine a construção de um avião moderno. Este avião é composto por centenas de milhares de peças. Agora imagine a loucura que é o Estado ter de calcular o valor individual de cada uma dessas peças. Numa economia socialista, é o Estado que tem de avaliar, encomendar, registar e calcular artificialmente o preço "correcto" de cada peça. É óbvio que num sistema assim, não tardará para que a burocracia atinja níveis rídiculos e verdadeiramente insustentáveis. Ao invés, no mercado livre os preços são automática e correctamente calculados pela lei da oferta e da procura. O Estado no máximo nunca deve ser mais do que um supervisor deste mercado livre, de forma a garantir a livre concorrência e evitar as práticas desleais.

A China e o Vietname conseguiram compreender isto a tempo e por isso é que esses regimes pseudo-socialistas ainda sobrevivem. A União Soviética, ao invés, nunca o chegou a compreender e por isso as coisas acabaram como acabaram... 

Por curiosidade, não pude deixar de perguntar à minha amiga de São Petersburgo se alguma vez esta tinha ido a Moscovo ver a múmia do Lenine. Ela respondeu-me com um sorriso maroto:

"Claro que sim! Quando tinha 10 anos disse à minha mãe que queria ir ver o Lenine, na altura tinha muita curiosidade em vê-lo porque na escola éramos ensinados a venerá-lo quase como se fosse um Deus. Eu e a minha mãe ficámos mais de oito horas numa fila até conseguir ver a múmia, nunca me vou esquecer."

Confesso que também eu tenho curiosidade de um dia ir a Moscovo ver a múmia do antigo revolucionário, um homem que quer queiramos, quer não, faz parte da nossa história colectiva e isso é algo que nunca poderá ser apagado. Pelo contrário, a memória do que foi a experiência soviética pode e deve ser preservada da melhor forma possível para evitar mais repetições da tragédia socialista.  



João José Horta Nobre
Setembro de 2013







domingo, 22 de setembro de 2013

As Fotos Que Hitler Queria Ver Destruídas





Em 1925, Adolf Hitler havia sido recentemente libertado da prisão após cumprir nove meses de pena por ter tentado organizar um golpe de Estado. Vendo que lhe era muito difícil tomar o poder pela via da força, Hitler mudou de estratégia e decidiu-se a tomar o poder pela via legal, minando progressiva, mas fatalmente, a ainda jovem República de Weimar.

Ora, uma das evidências do "jogo democrático", é a de que muitas vezes vence não o político com as melhores ideias e intenções, mas aquele que tem mais habilidade para fazer teatro. Neste campo, Hitler ultrapassava com larga mestria toda a sua concorrência da época. Não existia na República de Weimar nenhum político que conseguisse sequer chegar aos calcanhares de Hitler em termos de capacidade de retórica. 

De forma a conseguir aprimorar as suas capacidades de retórica, Hitler prestava-se a longos ensaios em frente a espelhos e por vezes ensaiava enquanto ouvia gravações dos seus próprios discursos. Foi em 1925 que o fotógrafo Heinrich Hoffmann teve a oportunidade de fotografar Hitler num destes momentos privados. Após visualizar as suas fotos, Hitler ordenou a Hoffmann que destruísse os negativos, algo que Hoffmann nunca chegou a fazer. Por fim, em 1955, Hoffmann publicou as suas memórias intituladas Hitler Foi Meu Amigo e foi nesta obra que revelou pela primeira vez as inéditas e curiosas fotos que deixo abaixo reproduzidas:




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Um exemplo de um discurso de Hitler:








João José Horta Nobre
Setembro de 2013






 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A Importância do Bacalhau na Civilização Europeia

 Foi o povo Viking que introduziu o bacalhau em Portugal por volta do século X, os vikings vinham até ao território que actualmente constitui Portugal continental para trocar o seu bacalhau por vinho e sal.





O estudo do sector e da indústria ligada ao bacalhau é apenas uma porta entreaberta para se conhecer o universo muito mais largo e complexo de todo o fenómeno económico-social das pescas.

As pescas compõem um subsistema económico-social cujo equilíbrio está sempre dependente da interacção dinâmica de diversas variáveis. Por este motivo, ontem como hoje a economia das pescas tem a tendência para submeter a produção à «dominação do mercado e aos poderes estabelecidos em terra».[1]

A História é no fundo um discurso metódico que tem como objectivo interpretar o que muda nas sociedades humanas e discernir o que a elas pertence. Assim sendo, o estudo da organização pública dos meios de subsistência é uma forma de voltarmos a estudar a história da economia num dos seus sentidos mais essenciais e básicos. Se o homem não compreender as origens da sua subsistência em termos alimentares, ele não poderá compreender muitos aspectos essenciais da sua identidade cultural.[2]

Em Portugal, quando nós falamos em Bacalhau, não se trata apenas de um peixe, mas sim de uma história de amor única no mundo entre um país e um alimento que nem sequer é originalmente seu.

No mundo em que vivemos, é bastante difícil encontrar um povo que tenha uma relação tão séria com um alimento que não é produzido nas suas terras nem obtido nas suas águas. O Bacalhau é para o povo português muito mais do que um mero peixe, é isso sim, uma instituição, um ícone da cultura portuguesa e da gastronomia nacional e obviamente um componente básico da alimentação tradicional portuguesa que ao longo dos séculos foi adquirindo inúmeras formas de confecção.

O romance entre Portugal e o Bacalhau iniciou-se na terra que hoje é sinónimo de leitão. À época, Portugal como estado-nação ainda nem sequer existia, mas foi precisamente na zona da Bairrada que o célebre povo Viking começou a trocar o seu bacalhau pelo nosso vinho e sal por volta do século X. Gradualmente o bacalhau foi-se inserindo nos hábitos alimentares dos portugueses e o seu uso acabou por se transformar numa tradição gastronómica que hoje é inegável.[3]

O fenómeno que alguns autores hoje designam por «revolução do bacalhau», supondo o termo em si uma relativa unidade e universalidade, é todavia plural e diferenciado tanto no tempo como no espaço.

A revolução alimentar que emerge do processo de expansão da economia-mundo europeia dos séculos XV e XVI oferece muitos exemplos de alimentos que geraram intermináveis «fluxos de história». Em muitos casos, estes alimentos acabaram por se transformar em verdadeiras «opções civilizacionais». Assim sendo, o bacalhau à semelhança do milho-maís foi uma das primeiras «invenções» da dieta alimentar europeia da Idade Moderna. Não é portanto de admirar que alguns autores tenham considerado o bacalhau como um dos principais factores por detrás da duplicação da população europeia entre 1450 e 1650, isto devido acima de tudo ao facto de o bacalhau ser uma fonte acessível de proteínas animais numa época em que estas eram escassas na alimentação dos homens.

Para além de tudo isto, um estudo mais aprofundado da «rota europeia do bacalhau» dá-nos também um exemplo bastante elucidativo da forma como se processaram historicamente a formação das economias de mercado.[4]

A produção e o consumo de produtos do mar são domínios de enorme vantagem e complexidade e por isso a inovação técnica neste campo é essencial. A conjugação da salga e da secagem foi uma inovação técnica que veio a permitir um processo simples e eficaz da conservação do bacalhau e assim garantir a circulação em grande escala do mesmo. Ambas as referidas técnicas desempenharam um papel importante na difusão das subsistências do mar que até à Idade Moderna pouco penetravam nas regiões menos próximas do litoral.

No mundo antigo e durante a Idade Média o pastoreio teve na subsistência dos povos mediterrânicos «um papel incomparavelmente superior ao da pesca». Sem dúvida que havia uma enorme necessidade de peixe fresco, fumado ou salgado, no entanto, os produtos do mar contarão pouco na dieta dos europeus continentais até ao advento do transporte ferroviário e das técnicas de conservação em «molhos» e pelo frio. Porém, bem antes de chegarmos à época dos caminhos de ferro, a escassez de pão resultante das crises de produção cerealífera nos campos e a acção das prescrições religiosas do jejum e da abstinência, vão ajudar a fixar no mundo mediterrânico e cristão a tradição multissecular do consumo de bacalhau salgado seco. Este é consumido durante a Idade Moderna principalmente pelos camponeses e pelas gentes humildes das cidades. Por outro lado, vai-se verificar uma relativa coincidência da distribuição geográfica das salinas com as fronteiras da Cristandade e com os países da Europa do Sul e isto explica também em parte a difusão do bacalhau salgado seco nas referidas regiões.

Por todas estas razões o bacalhau salgado seco será durante séculos uma subsistência considerada indicador de condições modestas de vida e um elemento fundamental de compensação da pobreza proteica das dietas mediterrânicas. [5]

Devido ao facto de as antigas técnicas da salga e da secagem nunca terem sido praticadas em tão grande escala anteriormente à «revolução do bacalhau», acabou por se poder definir um produto e em seu torno um mercado muito lucrativo: o «mercado internacional de bacalhau salgado seco».[6]

O nome de bacalhau deriva do latim baccalaureu, este vocábulo foi estudado de forma exaustiva por G. Viana que acabou por aceitar de forma provisória o étimo baccalaureu, já proposto por Carolina Michaelis de Vasconcelos. Segundo a referida autora, este termo cujo significado é bacharel não é caso único, pois ao mesmo peixe também se chamava badejo, palavra que vem do diminutivo espanhol de abad, abade. Por sua vez, curadilo é outro nome que se dá ao bacalhau em espanhol e esta palavra provém de acordo com Carolina de Michaelis, de cura, padre. G. Viana discorda desta opinião e considera que na realidade curadilo provém de curado que é um particípio passado do verbo curar – conservar por meio do fumo, sal ou exposição solar -, o qual depois de se adjectivar, se substantivou.[7]

Há, no entanto, outros autores que defendem que bacalhau é uma palavra que terá derivado do neerlandês Kabeelauw, bakeljauw, mas esta hipótese é altamente improvável, devido ao facto do vocabulário neerlandês ser demasiado longo para ser primitivo e por outro lado, G. Viana explica-nos que foram os portugueses e espanhóis que primeiro tiveram contacto com o bacalhau e não o povo neerlandês.

Também é certo que o vocábulo bacalhau não se encontra com esta ou outra fórmula parecida, nem no groenlandês, nem no esquimó, nem em qualquer idioma falado pelos índios da América do Norte, povos que do ponto de vista geográfico sempre foram mais próximos do bacalhau.

De resto, o que se pode dizer é que a origem do nome bacalhau não está por enquanto, suficientemente esclarecida e possivelmente nunca o será.

A bacalhau é especialmente apreciado em Portugal, onde é consumido na forma salgada seca. O Brasil, para onde o gosto por este peixe foi levado pelos portugueses, é um dos maiores importadores a nível mundial, mas infelizmente o bacalhau no Brasil é vendido a preços proibitivos para o típico consumidor brasileiro. O bacalhau também é consumido frequentemente no Norte da Europa onde é apreciado sobretudo na forma fresca ou congelada.

Como já foi dito, a pesca do bacalhau contribuiu inegavelmente para a formação e riqueza do Império Viking. No entanto, convém referir que o «pai do bacalhau» pode ser considerado o mercador holandês Yapes Ypess por ter sido ele que fundou a primeira indústria de transformação deste peixe e foi pioneiro também na comercialização do mesmo. Um outro marco histórico que vale a pena referir é que durante o século XIV na Holanda, foi fundado um partido político que adoptou o nome de Bacalhau, algo que deixa patente a importância deste peixe já na época. Também na Gronelândia o bacalhau teve uma importância primacial, pois chegou a substituir a moeda neste território.[8]



 
Notas:

[1] GARRIDO, Álvaro, Abastecimentos e Poder no Salazarismo: o “bacalhau corporativo” (1934-1967), Coimbra, FEUC, 2003, pág: 19-20.
[2] GARRIDO, Álvaro, Abastecimentos e Poder no Salazarismo: o “bacalhau corporativo” (1934-1967), Coimbra, FEUC, 2003, pág: 21.
[3] CARVALHO, Pedro, B de Bacalhau, life&style, http://lifestyle.publico.pt/dicionario/298153_b-de-bacalhau, data da última consulta: 20/12/2011.
[4] GARRIDO, Álvaro, Abastecimentos e Poder no Salazarismo: o “bacalhau corporativo” (1934-1967), Coimbra, FEUC, 2003, pág: 24-27.
[5] GARRIDO, Álvaro, Abastecimentos e Poder no Salazarismo: o “bacalhau corporativo” (1934-1967), Coimbra, FEUC, 2003, pág: 28-32.
[6] GARRIDO, Álvaro, Abastecimentos e Poder no Salazarismo: o “bacalhau corporativo” (1934-1967), Coimbra, FEUC, 2003, pág: 33.
[7] MARÍLIA, Abel; CONSIGLIERI, Carlos, O Bacalhau Na Vida e Na Cultura dos Portugueses, Academia do Bacalhau, Lisboa, 1998, pág: 30.
[8] MARÍLIA, Abel; CONSIGLIERI, Carlos, O Bacalhau Na Vida e Na Cultura dos Portugueses, Academia do Bacalhau, Lisboa, 1998, pág: 30-31.




João José Horta Nobre
Dezembro de 2011






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