segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Capitais Angolanos em Portugal: Um Benefício ou Uma Ameaça à Soberania Nacional?





Angola tem sido nos últimos anos descrita como o "El Dorado" económico do mundo lusófono. Desde 2007 que temos assistido a uma cada vez maior pujança das relações económicas entre Portugal e Angola. Sem perspectivas dentro da Zona Euro, a classe empresarial portuguesa tem-se refugiado largamente nas oportunidades oferecidas pela economia angolana e a política de "portas abertas" seguida pelo regime.

O mercado angolano já absorve 4,6% das exportações portuguesas, sendo assim o 5º destino a nível mundial (em 2002 era o 9º) e o primeiro fora da União Europeia. No entanto, a maior novidade está no crescimento do investimento angolano em Portugal que passou explosivamente de apenas 1,6 milhões de euros em 2002, para 116 milhões de euros em 2009!

Ora, o típico cidadão português que assiste a todo o barulho que passa diariamente nos media sobre as "oportunidades oferecidas por Angola", pensará com certeza que graças aos capitais angolanos temos conseguido abrir novas fábricas em Portugal, aumentando assim a nossa produtividade e reduzindo o emprego.

Porém, nada poderia estar mais errado, na realidade, nem o sector primário, nem o secundário, nem o terciário se desenvolveram em Portugal graças aos capitais angolanos. Os capitais injectados em Portugal por Angola visam simplesmente a compra de participações em empresas já existentes e a laborar, não existe uma verdadeira criação de emprego.[1]

O coração do modelo económico português nos últimos 20 anos tem estado assente no sector do imobiliário e do crédito bancário a ele associado. Foram precisamente estes sectores que mais sofreram com a crise financeira que se abateu sobre a Europa e os Estados Unidos nos últimos anos e são precisamente estes sectores que tomaram a dianteira do alargamento das relações económicas com Angola, isto num claro acto de desespero para conseguirem sobreviver à crise financeira.

Os capitais atraídos por estes sectores para Portugal têm aumentado considerávelmente as grandes fortunas de alguns portugueses pertencentes à elite económica nacional. Porém, a actividade económica portuguesa própriamente dita, pouco ou nada tem beneficiado com os capitais angolanos.[2]

Só é possível falar de verdadeiro e positivo investimento externo se este criar fábricas, melhorar o sector das pescas e agricultura e criar empregos. Até agora os capitais angolanos que chegaram a Portugal não fizeram nada disto, pois têm-se limitado praticamente apenas à compra de participações em empresas nacionais.[3]

Mais preocupante ainda é saber a origem do capital angolano, algo que ninguém parece conseguir compreender muito bem, diz-se apenas que "vem de Angola"...

Segundo Abel Epalanga Chivukuvuku, um oposicionista do regime angolano, Portugal é neste momento um "refúgio" dos capitais ilícitos angolanos: 

"Nós encorajamos o investimento recíproco. O que apenas consideramos negativo é quando Portugal quase se torna uma espécie de refúgio de capitais ilícitos. Ilícitos de Angola para Portugal"[4]

Não é segredo nenhum que existe lavagem de dinheiro obtido ilicitamente em alguns (para não dizer a maioria...) dos montantes de capitais transferidos por cidadãos angolanos para Portugal.

Estas transferências de dinheiro, se fossem lícitas, ganhas "normalmente com trabalho, honestidade e seriedade"[5], seriam bastante benéficas e positivas, mas quando se transformam num espaço de branqueamento de capitais ilícitos já é negativo.

Licita ou ilícita, o facto é que esta "disponibilidade de capitais" angolanos e a vontade apressada que a "elite" angolana tem de os colocar fora de Angola, não deixam de ser mais do que suspeitos...

Antes de mais, impõe-se que se analise quem é esta tal "elite" que tem feito jorrar tantos milhões de euros para Portugal. 

Esta "elite" angolana de que falo é, segundo várias fontes, constituída por cerca de uma centena de figuras destacadas do regime angolano. Estas figuras são pessoas que estão em torno do Presidente José Eduardo dos Santos e são por isso mesmo muito próximas do mesmo. Contam-se também nesta centena as altas patentes militares das Forças Armadas Angolanas (todo o ditador minimamente inteligente sabe que é preferível manter os militares próximos de si e bem "alimentados", de forma a evitar futuras "primaveras"...).

Para se proteger a si mesma, esta "elite" preserva a sua riqueza acumulada de forma lícita e ilícita em bancos e aplicações no estrangeiro. Portugal tem aqui um papel destacado, pois constitui claramente um alvo preferencial da "elite" angolana. Desta forma, a "elite" angolana pretende garantir a sua propriedade no futuro e ter um refúgio económico que a salve da falência no caso da mesma eventualmente vir a cair do poder em Angola como consequência de alguma "primavera". Os cofres da banca portuguesa são assim um meio através do qual a "elite" angolana encontrou um refúgio seguro e amigável para os seus capitais de origens obscuras.

Pessoalmente, a faceta deste negócio que mais me preocupa é a crescente influência dos capitais angolanos em Portugal no domínio dos media.

Como os estimados leitores deverão de saber, "imprensa livre e independente" é uma coisa que hoje práticamente já não existe. Os media são hoje detidos por grandes grupos económico-financeiros que os utilizam e colocam ao seu serviço para a defesa dos seus interesses. Ora, precisamente por saber que os media não passam hoje de um gigantesco "megafone" ao serviço dos grandes grupos económico-financeiros é que eu não vejo com bons olhos a influência dos capitais angolanos nos media portugueses.

Teoria da conspiração dirão alguns! Então leiam apenas esta reportagem publicada no Público a 05/06/2013:

"O perfil do investimento angolano nos media tradicionais portugueses tem em si mesmo uma contradição: são participações essencialmente minoritárias, mas em órgãos de comunicação social com grande expressão no mercado.

A Newshold, participada da empresa offshore Pineview Overseas registada no Panamá e que pertence à família de Álvaro Sobrinho, tem uma quota de 15,08% na Cofina, dona do diário líder de vendas, o Correio da Manhã, que agora tem também o canal CMTV, assim como o Jornal de Negócios e a revista Sábado, entre outros títulos. Tem cerca de 97% do semanário Sol — onde entrou comprando a participação do Millennium bcp, e gere a publicidade do diário i.

A Newshold tem ainda 1,7% da Impresa de Francisco Pinto Balsemão, proprietária, entre outros meios, da SIC (que tende a bater-se pela liderança de audiências com a TVI), do semanário líder Expresso e da Visão, além de diversas revistas.

Em Dezembro, a Newshold assumiu ser candidata à compra ou concessão da RTP, se fosse esse o plano do Governo, mas a opção do executivo foi, por enquanto, de reestruturar o serviço público de rádio e televisão.

Foi nessa altura, e por se ter levantado alguma polémica devido ao desconhecimento dos verdadeiros donos da Pineview, que o empresário angolano Álvaro Madaleno Sobrinho sentiu necessidade de anunciar, em comunicado publicado no Sol, que a companhia pertence à sua família.

No início do ano passado, a histórica produtora cinematográfica Tóbis foi vendida pelo Estado português, por quatro milhões de euros, à empresa alemã mas de capitais angolanos Filmdrehtsich Unipessoal Lda.

Há duas semanas, a Prisa, dona da TVI, anunciou que vendeu ao grupo luso-angolano Masemba três revistas — Lux, Lux Woman e Revista de Vinhos. A Masemba é uma parceria constituída pelas produtoras angolana Semba — que assim se estreia na imprensa — e portuguesa Até ao Fim do Mundo.

Ainda na área dos media, mas na distribuição, a filha do Presidente angolano, Isabel dos Santos, que controla 28,8% da ZON, vai, com a Sonaecom (dona do PÚBLICO), fundir a ZON e a Optimus."[6]

Esta "ofensiva" em relação aos media portugueses por parte da "elite" angolana serve essencialmente dois propósitos:

1º - Visa refazer a imagem interna e externa do regime angolano, através do controlo dos meios de comunicação social em Portugal.

2º - O regime angolano visa obter através de Portugal uma maior legitimidade junto da União Europeia e um acesso facilitado aos meios de comunicação social da Zona Euro.

Até agora, apenas o sector do retalho é que tem conseguido escapar a esta "ofensiva" dos capitais angolanos.[7]  

O que não deixa de ser contraditório é que Portugal, um Estado-Membro da União Europeia, que na teoria se diz "defensora dos direitos humanos", tenha todo este compadrio com um regime profundamente despótico e corrupto como é o do MPLA... Aliás, segundo uma reportagem do Deutsche Welle, o Angola Economic Update, uma ONG Norte-Americana, concluiu que entre 1980 e 2009 o movimento ilegal de capital em Angola "terá representado 9,5% do PIB angolano"![8]




Isabel dos Santos, a primeira bilionária africana. Esta é a face mais visível e "simpática" do regime angolano e aquela que provávelmente está mais próxima do líder do regime, precisamente por ser sua filha.




Portanto, fica evidente que a "elite" angolana encontrou em Portugal uma plataforma ideal para lavar os seus capitais. 

A banca portuguesa descapitalizada, os grupos económicos esfomeados por investimento directo, o elevado desemprego de jovens licenciados que oferece uma enorme disponibilidade para a emigração, o mercado de comunicação social retraído e em recomposição, tudo isto são condições que transformam Portugal num alvo extremamente apetecível para a "elite" angolana.

Ora, urge então que se responda à pergunta colocada no título deste artigo. Afinal os capitais angolanos constituem um benefício ou uma ameaça à nossa soberania nacional?

Eu direi que nem uma coisa, nem outra.

Angola não tem capacidade de colocar em risco a soberania económico-política portuguesa por uma diversidade de factores que seria demasiado exaustivo explicar aqui.

A nossa única e grande ameaça neste momento em termos de soberania são os banqueiros de Wall Street e a União Europeia e é com estes internacionalistas sem escrúpulos que nos temos de preocupar, algo dificíl de se fazer se tivermos em conta a presente apatia do povo português associada à profunda irresponsabilidade criminal da classe política portuguesa...

Apesar de não colocarem sériamente em risco a nossa soberania económico-política, os capitais angolanos comportam uma série de riscos para Portugal que a nossa mentecapta e incapaz classe política tem menosprezado e ignorado ao longo dos últimos anos.

Por um lado, a banca portuguesa está neste momento a ficar demasiado dependente do capital angolano, algo preocupante se tivermos em conta a quantidade de "dinheiro sujo" que anda sempre e inevitávelmente ligado aos negócios dos regimes despóticos e corruptos.

Por outro lado, estamos a assistir neste momento a uma "angolanização da construção portuguesa", algo negativo, pois coloca as empresas de construção portuguesas dependentes de forma quase total do mercado de construção angolano. A curto/médio prazo isto poderá trazer benefícios na forma de lucros fáceis e rápidos, porém, no longo prazo transforma-se num vicio destrutivo para qualquer empresa, pois quando o mercado angolano falhar, a empresa falhará também...

Resumindo, Angola, como qualquer outro país do mundo, pode e deve representar uma fabulosa oportunidade de investimento para os nossos empresários. Porém, as origens obscuras do dinheiro angolano, assim como as claras tentativas por parte da sua "elite" para manipular os media portugueses, colocam em causa o bom nome de Portugal e são uma ameaça real para a nossa credibilidade financeira junto de outros investidores internacionais.

Qualquer investimento proveniente de dinheiro limpo que produza riqueza e crie emprego, deve ser sempre acolhido e bem-vindo, direi que até mesmo protegido. No entanto, investimentos provenientes de dinheiro sujo nunca foram, nem são um bom investimento em qualquer parte do mundo. Se Portugal quiser preservar o seu bom nome e a sua já muito enfraquecida credibilidade junto dos investidores internacionais, então é neste campo que o governo deve ter um comportamento exemplar, algo dificíl de se vir a concretizar, como já o disse, devido precisamente à lobotomia de que padece a actual classe política portuguesa, uma lobotomia incapacitante que permanece sem fim à vista, por enquanto...




Notas:
[1] - NOTÍCIAS AO MINUTO - "Capital angolano em Portugal Só Enriquece Alguns", 18 de Junho de 2013. Link: http://www.noticiasaominuto.com/economia/83161/capital-angolano-em-portugal-s%C3%B3-enriquece-alguns#.Uhq2tH_BHDc
[2] - NOTÍCIAS AO MINUTO - "Capital angolano em Portugal Só Enriquece Alguns", 18 de Junho de 2013. Link: http://www.noticiasaominuto.com/economia/83161/capital-angolano-em-portugal-s%C3%B3-enriquece-alguns#.Uhq2tH_BHDc
[3] - NOTÍCIAS AO MINUTO - "Capital angolano em Portugal Só Enriquece Alguns", 18 de Junho de 2013. Link: http://www.noticiasaominuto.com/economia/83161/capital-angolano-em-portugal-s%C3%B3-enriquece-alguns#.Uhq2tH_BHDc
[4] - EXPRESSO - Portugal é "Refúgio" de Capitais Ilícitos Angolanos, 29 de Maio de 2013. Link: http://expresso.sapo.pt/portugal-e-refugio-de-capitais-ilicitos-angolanos=f810356
[5] - EXPRESSO - Portugal é "Refúgio" de Capitais Ilícitos Angolanos, 29 de Maio de 2013. Link: http://expresso.sapo.pt/portugal-e-refugio-de-capitais-ilicitos-angolanos=f810356
[6] - LOPES, Maria - Angolanos nos Grandes Media Portugueses Embora Com Quotas Minoritárias, Público, 05 de Junho de 2013. Link: http://www.publico.pt/economia/noticia/angola-quotas-minoritarias-nos-media-mas-nos-grandes-1596447
[7] - BARROSO, Rui; SILVA, Marta Marques - Só o Retalho Nacional Escapa ao Capital Angolano, Económico, 20 de Agosto de 2013. Link: http://economico.sapo.pt/noticias/so-o-retalho-nacional-escapa-ao-capital-angolano_175624.html
[8] - BICHO, Francisca - Saída Ilegal de Capital chegou a 9,5% do PIB Angolano, Deutsche Welle, 24 de Junho de 2013. Link: http://www.dw.de/sa%C3%ADda-ilegal-de-capital-chegou-a-95-do-pib-angolano/a-16902510

 

João José Horta Nobre,
Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Agosto de 2013











quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Como Wall Street Financiou a Revolução Bolchevique: Uma Verdade Esquecida




"Os homens... são facilmente induzidos a acreditar num modo maravilhoso de governação em que todos podem ser amigos uns dos outros, especialmente quando alguém é ouvido a denúnciar os males agora existentes nos estados, [...]. Estes males, no entanto, são devidos a uma causa muito diferente - a maldade da natureza humana." - Aristóteles in "Política", Livro II, 1263.b15.

A Revolução Bolchevique sempre me cheirou a peçonha e vigarice sem fim. Nunca vi a "coisa" com bons olhos e quanto mais leio sobre o assunto, mais dúvidas tenho sobre o mesmo. Podemos hoje ter a certeza absoluta de que a "versão oficial" sobre a Revolução Russa, propagandeada por Moscovo durante décadas, não passa de uma meia-verdade com inúmeras fabricações, distorções e mentiras descaradas.

Um dos historiadores que mais contribuiu para levantar a verdade possível sobre a Revolução Bolchevique foi Antony C. Sutton (1925 - 2002), autor de Wall Street and The Bolshevik Revolution: The Remarkable Story of The American Capitalists Who Financed The Russian Communists, uma obra fruto de investigação cuidadosa e inteligente, publicada pela primeira vez em 1974, salvo erro.

Durante décadas muitos houve que levantaram a questão das ligações entre Wall Street e os bolcheviques, porém, a propaganda soviética encarregou-se sempre de rebater os acusadores chamando-lhes "lunáticos" e "teóricos da conspiração". Ora, se há coisa que a obra de Sutton deixa claro, é que já não é possível afirmar que as ligações entre Wall Street e os blocheviques são uma mera "teoria da conspiração". Essas ligações existiram, foram profundas e beneficiaram amplamente ambas as partes.

Por exemplo, por que é que a Missão Americana da Cruz Vermelha de 1917 enviada para a Rússia, incluía mais homens ligados ao mundo financeiro de Wall Street do que médicos?

A resposta a esta questão é bastante simples: Os interesses financeiros de Wall Street aproveitaram a Missão Americana da Cruz Vermelha para infiltrarem a mesma e subsequentemente entrarem mais fácilmente em contacto com o governo de Alexander Kerensky e posteriormente com o governo Bolchevique.

Antony C. Sutton baseou-se em fontes históricas obtidas nos arquivos do State Department do governo Estado-Unidense, em documentos pessoais de grandes figuras do mundo financeiro de Wall Street, biografias e testemunhos, de forma a chegar a várias conclusões:

1º -  Os executivos bancários da Morgan tiveram um papel activo na canalização do ouro Bolchevique roubado ao povo russo para os cofres de bancos estado-unideneses.

2º - A Cruz Vermelha foi amplamente utilizada pelas forças poderosas de Wall Street de forma a se infiltrarem na Rússia Bolchevique.

3º - Houve figuras influentes de Wall Street que intervieram pessoalmente na Revolução Bolchevique, nomeadamente foram estas que fizeram pressão de forma a libertar Leon Trotsky, para que este pudesse ficar livre e assim derrubar o governo russo, abrindo o caminho para a Guerra Civil Russa com a qual Wall Street "engordou" mais um pouco.

4º - Várias grandes empresas estado-unidenses celebraram acordos secretos com o governo bolchevique uma década e meia antes de os Estados Unidos reconhecerem o regime soviético.

5º - Houve homens de negócios bem colocados em Wall Street que apoiaram a Revolução Bolchevique em segredo, enquanto simultâneamente, defendiam publicamente o Capitalismo e o mercado livre.

6º - Sem a vital assistência financeira prestada por Wall Street, os bolcheviques nunca teriam conseguido vencer a Guerra Civil Russa.

Estas revelações de Sutton não são novas como é óbvio, pois a sua obra data do início da década de 1970, porém, apesar de terem passado quatro décadas, muitos ainda desconhecem por completo estes factos que certamente hoje poderão ser aprofundados graças à maior abertura que existe em poder consultar os arquivos soviéticos, agora disponíveis de forma parcial devido à queda da URSS.



Quem quiser ler a obra completa de Antony C. Sutton numa versão gratuita em pdf autorizada pelo autor, pode fazê-lo aqui: 



João José Horta Nobre
Agosto de 2013








domingo, 11 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues Morreu - Inferno Com Ele!

A urna de Urbano Tavares Rodrigues durante o cortejo fúnebre para o Cemitério do Alto de São João, coberta pela bandeira do Partido Comunista Português (PCP).


“Enforquem ao menos 100 kulaks, executem os reféns. Façam-no de maneira a que num raio de vários quilómetros as pessoas vejam e tremam." - Vladimir Ilitch Lenine (1870 - 1924)

Faleceu Urbano Tavares Rodrigues. Várias e ilustres personalidades como Fernando Rosas, Catarina Martins e Helena Roseta, foram despedir-se do falecido escritor, assistindo ao seu cortejo fúnebre.

Jerónimo de Sousa, o Secretário-Geral do Partido Comunista Português (PCP), sublinhou o papel de Urbano Tavares Rodrigues na "luta antifascista"[1] e afirmou que este "esteve sempre do lado dos que mais sofriam."[2]

Em relação à "luta antifascista", eu pergunto: se Urbano Tavares Rodrigues estava tão preocupado em combater o totalitarismo e defender a democracia, então porque é que nunca denunciou o regime soviético da mesma forma que denunciou o regime salazarista durante décadas?

Pior, para além de não ser coerente na sua suposta "luta antifascista", Urbano Tavares Rodrigues ainda se foi juntar a um partido que desde a 1ª hora da sua fundação, sempre conspirou e continua a conspirar para montar uma ditadura totalitária de cariz marxista em Portugal.

Para um escritor tão badalado e protegido por certos sectores, é estranho que ninguém repare nesta falta de coerência, ou talvez reparem, mas não lhes convém denunciar a mesma...

Em relação ao facto de ter estado "sempre ao lado dos que mais sofriam", bem, sendo assim, eu gostava de saber porque é que o Urbano Tavares Rodrigues nunca esteve ao lado das vítimas do terror soviético? Enquanto milhões de eslavos agonizavam nos campos de trabalhos forçados da Sibéria (ao pé dos quais o Tarrafal não passava de uma mera brincadeira de crianças), o Urbano Tavares Rodrigues militava alegremente no PCP, pagando cotas e branqueando o terror comunista.

O que teria Urbano Tavares Rodrigues a dizer em relação aos presos e torturados pelo KGB? Em relação à invasão do Afeganistão pela União Soviética nos anos 1980? Em relação aos milhões de ucranianos que ainda hoje choram os familiares assassinados por Estaline durante o Holodomor? Em relação à Cortina de Ferro? A invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte na década de 1950? As milhares de igrejas ortodoxas destruídas ou danificadas pelos bolcheviques? As freiras violadas pelos soldados do exército vermelho? Os fuzilados em Cuba? As listas de abate dos repúblicanos espanhóis durante a Guerra Civil de Espanha? Os nacionalistas polacos massacrados por Estaline? As fomes artificiais? As purgas? Os massacres? Os campos de morte do Pol Pot no Cambodja? A Revolução Cultural do "camarada" Mao Tsé-Tung? Os presos políticos feitos durante o "democrático" PREC? Os "saneamentos" de jornalistas feitos por José Saramago enquanto foi director-adjunto do Diário de Notícias?

O que teria Urbano Tavares Rodrigues a dizer em relação a tudo isto? Ou será que ele também era mais um desses negacionistas do terror bolchevique que alegam que tudo não passa de uma invenção do "imperialismo americano"? Talvez alguém do PCP pudesse esclarecer estas dúvidas...

Urbano Tavares Rodrigues podia de facto ser um homem de fino trato, culto e educado, mas isso não o livra da culpa de ter dedicado toda uma vida ao apoio e branqueamento da ideologia mais assassina alguma vez concebida na história da humanidade. Urbano Tavares Rodrigues sabia do que se passava na União Soviética e nos países debaixo do jugo comunista, ele não era nenhum ignorante ou analfabeto. Ele sabia das prisões, massacres, torturas, purgas e deportações, sabia disto tudo e muito mais, mas mesmo assim nunca abriu a boca a denunciar fosse o que fosse. Tomou em consciência a opção de ser comunista e assim se manteve durante toda a vida sem uma pinga de arrependimento ou remorso. Por tudo isto, não sei como alguém no seu perfeito juízo pode afirmar que ele era alguém que "esteve sempre ao lado dos que mais sofriam."

Inferno com ele!

____________________________________

Notas:
[1] - LUSA - Longo Aplauso na Despedida a Urbano Tavares Rodrigues. Diário de Notícias. Link: http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=3366533&seccao=Livros&page=-1
[2] - LUSA - Longo Aplauso na Despedida a Urbano Tavares Rodrigues. Diário de Notícias. Link: http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=3366533&seccao=Livros&page=-1 

João José Horta Nobre
11 de Agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

No Tempo Em Que Só Se Tomava Banho Uma Vez Por Ano...



"Não podem fazer ideia da vida que eles levam, ali. Uma vida rural simples e dura. Levantam-se cedo porque têm muito que fazer e deitam-se cedo porque têm muito pouco que pensar." - Oscar Wilde (1854 - 1900)

É bastante comum dizer-se que a vida "mudou muito" em relação ao que era há apenas um século ou até meio-século atrás. Bem, afirmar que "mudou muito" não basta para se ter mesmo a real noção do quanto a sociedade se transformou desde o tempo dos nossos bizavôs.

Já me aconteceu ouvir gente a dizer que "na Idade Média as pessoas só tomavam banho uma vez por ano". 

É verdade que na já longínqua Idade Média os hábitos de higiene não eram de forma alguma o que são hoje. Mas não é necessário recuar tanto, basta-nos recuar um século para encontrar gente que só tomava um banho anual. 

Os meus bizavôs eram do tempo em que a casa de banho ficava por detrás da oliveira e o papel higiénico era uma pedra qualquer que fosse macia o suficiente para não abrir feridas no rabo. O banho, esse momento especial, era apenas uma vez por semana no verão, uma vez por mês no inverno e havia pessoas que apenas o tomavam uma vez por ano. Gel de Banho? Era o velhinho sabão Azul e Branco ou o Feno de Portugal. Pasta de dentes não havia, depois na década de 1930 surgiu a Couto, mas isso era considerado um luxo pela maioria dos camponeses e os que a compravam normalmente só lavavam os dentes uma vez por semana "para poupar."

Frigoríficos eram outro luxo inacessível para a esmagadora maioria da população e no verão para se refrescar o vinho, as gentes rurais colocavam as garrafas dentro de cestos no fundos dos poços. Cerveja? Só nos países nórdicos e da Euopa Central. Quem fosse à taberna tinha ao seu dispôr o copo de vinho tinto, o copo de vinho branco e a aguardente de medronho ou de bagaço. Os licores doces e whiskey's eram um luxo reservado apenas para a gente fina e rica que nunca teve a mínima noção dos rigores da vida rural.

O azeite e o vinho a cuja produção alguns familiares meus se dedicaram durante gerações, eram produzidos de forma verdadeiramente artesanal. Não havia máquinas. As uvas e as azeitonas tinham de ser colhidas manualmente e espremidas e trabalhadas apenas com a força dos músculos do corpo. O pão era amassado à mão e cozido em fornos de lenha e esta por sua vez também era cortada manualmente e transportada à mão ou em carros puxados por burros.

Quando ouço meninas e meninos pipis a choramingarem nos cafés que estão muito mal na vida porque partiram uma unha ou porque os paizinhos não lhes ofereceram o último telemóvel a ser lançado, chego à conclusão de que o maior fracasso dos nossos antepassados foi o de não terem conseguido preservar para a posteridade a lembrança da dureza da vida noutros tempos.
 
As mulheres camponesas do início do século XX e anteriores viveram vidas de trabalho duro como hoje poucos têm noção. Trabalhavam de sol a sol, não havia aspiradores, champôs, máquinas de lavar, micro-ondas, nem nenhumas dessas outras maravilhas tecnológicas que o Capitalismo nos ofereceu em massa a partir da década de 1950 e que vieram a tornar as nossas vidas tão confortáveis.

Os pensos higiénicos eram paninhos de tecido que tinham de ser lavados à mão depois de sujos e consultas no ginecologista eram só para as mulheres oriundas de famílias ricas que tivessem dinheiro para pagar ao médico.

Na rua tirava-se o chapéu quando o Sr. Dr. não sei das quantas passava a pé. Os médicos, mais do que qualquer outra figura social, eram reverenciados pelo povo de forma quase fanática. Era o médico que surgia como "o último salvador" quando as mézinhas, os chás e as orações falhavam na cura da maleita que afectava o paciente. Por este motivo, as acções do médico eram vistas como acções milagrosas pela maioria das gentes que não tinham a mínima noção do siginificado da palavra "ciência". Esta reverência em relação à classe médica, a par do desprezo pelas letras (por norma despreza-se o que não se compreende...), mantém-se até hoje em Portugal.

O poço que ainda se encontra na casa dos meus pais foi escavado à mão no início do século XX por um dos meus tios do antigamente. Não havia discotecas, nem bares, nem concertos para onde ele fosse gastar as suas magras poupanças aos fim-de-semana. Havia a taberna onde se encharcava em vinho depois de vir da fábrica de cortiça onde trabalhava, ritual este que acabou por o transformar num álcoolico e o acabou por matar de ataque cardíaco já na década de 1970.

Um outro tio meu do antigamente também era operário na mesma fábrica de cortiça onde apanhou uma terrível asma devido à inalação dos químicos utilizados na lavagam da cortiça e dos pós resultantes do corte da mesma. Seguro de trabalho não havia e os médicos eram muito caros. A solução foi ir vendendo terras e desfazendo-se assim de muitos dos seus imóveis para ter dinheiro para pagar aos médicos e comprar os medicamentos. Também este veio a falecer na década de 1970, vítima de um ataque de asma fulminante.

No inverno não existiam aquecedores eléctricos, nem os sistemas de aquecimento central que hoje mantêm a alcofa quente a muitos "revolucionários de cadeirão" que passam os dias a delirar com os "amanhãs que cantam". Por este motivo, o burro e o palheiro faziam parte integral de muitas casas de camponeses, de forma a proporcionar o conforto do calor animal durante o inverno.

Em termos de carne e leite a situação era um desastre. A maioria dos camponeses só comia carne aos domingos ou quando se matava o porco. Leite só o bebiam se tivessem uma vaca leiteira ou alguém na próximidade que o vendesse acabado de espremer das tetas da vaca. Essas coisas do leite "desnatado e ultrapasteurizado" são modernices dos tempos actuais.

Nas escolas e na maioria dos locais públicos abundavam os piolhos e os parasitas intestinais. A subnutrição era lugar comum, a ignorância e o analfabetismo grassavam neste pobre povo que no máximo estudava até à 4ª classe antes de ir trabalhar para a fábrica ou na lavoura do campo. Electricidade só havia na cidade e era "coisa de gente rica". Usavam-se os candeeiros a petróleo ou a azeite cuja luz permitia que mulheres como a minha avó pudessem remendar a roupa estragada já depois do pôr do sol. Em termos de comunicações, basta dizer que uma das minhas tias só passou a ter telefone em casa já nos anos 1990.

Era assim a vida no antigamente. Não é necessário recuar até à Idade Média para nos depararmos com situações que hoje apenas encontramos nas reportagens sobre os países do Terceiro Mundo. Basta recuar até ao Portugal de 1920.

João José Horta Nobre
08 de Agosto de 2013

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