quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Mocidade Portuguesa Feminina e a Construção da "Nova" Mulher Portuguesa





A Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) foi uma organização estatal do Estado Novo que era de enquadramento obrigatório para todas as jovens portuguesas dos sete aos dezasseis anos de idade. Criada a 8 de Dezembro de 1937, pelo Decreto-Lei Nº 28 262, a MPF tinha por fim “formar uma mulher «nova», através da «educação moral, cívica, física e social.”[1]


Para a MPF, a educação moral consistiria na “educação cristã, tradicional no País”, a educação cívica tiraria inspiração das “grandes tradições nacionais”, a educação física teria como objectivo “o fortalecimento racional, a correcção e a defesa do organismo, tanto como a disciplina da vontade, a confiança no esforço próprio”, por fim, a educação social tinha como objectivo cultivar nas filiadas “o gosto pela vida doméstica e o de servir o bem comum.”[2]


Nas décadas de 1920 e 1930, era hábito comum os regimes fascistas europeus levarem a cabo uma organização da sociedade de acordo com os cânones ideológicos do Fascismo. Sendo assim, em Portugal, Salazar não pretendia ficar para trás em relação aos seus congéneres da Itália fascista e Alemanha Nazi e por isso demonstrou desde muito cedo preocupações em relação ao enquadramento da juventude no aparelho ideológico do Estado. Só para que se tenha noção da importância que Salazar dava a esta questão, já em 1932, numa entrevista a António Ferro, Salazar refere a necessidade de criar uma organização estatal que enquadre e organize a juventude portuguesa. Portugal seguia assim a tendência que se vivia em muitos países da Europa na época.[3]


O Comunismo teve também um papel muito importante na origem destas organizações estatais de juventude, pois urgia que se enquadrasse a juventude em organizações que lhes incutisse ideais contrários aos ideais do Comunismo. Corriam por toda a Europa relatos assustadores sobre o terror vermelho que se vivia na União Soviética. O próprio António Ferro chegou a referir-se a Lenine como uma “personagem sinistra” que envergava um “sorriso satânico.” As classes médias europeias assustadas com o “perigo vermelho” vindo de leste e passando por graves dificuldades económicas, apoiaram em massa o nazi-fascismo nas décadas de 1920-1930 por crerem que este seria o último bastião político-militar e a única força em condições na época, capaz de efectivamente travar e derrotar o Comunismo na Europa.


Face às realidades extraordinárias da época, os regimes nazi-fascistas decidiram que o melhor remédio preventivo contra o comunismo era cativar a juventude para os seus próprios princípios ideológicos, antes que esta fosse cativada pelos seus rivais e arqui-inimigos comunistas. A Mocidade Portuguesa Feminina era assim apenas mais uma destas organizações doutrinárias e ideologicamente anti-comunistas.


A juventude constitui um dos pilares da sociedade e no caso desta, ela é também o futuro, logo, qualquer regime político que consiga eficazmente cativar e doutrinar a juventude terá meio-caminho andado para o sucesso.


A MPF tinha vários modelos femininos que correspondiam aos ideais defendidos pelo Estado Novo e que representavam os valores femininos que a MPF deveria de defender e proteger. Assim sendo, a Dona Leonor, a Dona Filipe de Lencastre e a Virgem Maria eram algumas destes modelos históricos e religiosos que deveriam servir de exemplo às raparigas.[4]


A MPF utilizou desde o início várias publicações como forma de transmissão dos seus valores às raparigas que liam as mesmas. Assim sendo, entre 1939 e 1947 a MPF publicou o Boletim da MPF que era dirigido às filiadas na MPF que estava ainda nesta época a tentar enquadrar todas as jovens na ideologia do Estado Novo. No entanto, o facto de Portugal ser um país à época com uma taxa de analfabetismo muito elevada, levou a que inevitavelmente acabassem por ser as jovens pertencentes às classes sociais mais altas as que principalmente liam o Boletim da MPF. Segundo Irene Pimentel, o Boletim da MPF tentou “formar uma elite feminina, colaboradora da elite masculina do Estado Novo, e criar uma mulher «nova».”[5]


Desde o início da sua publicação, o Boletim da MPF teve objectivos muito claros e a condessa de Rilvas em conjunto com a comissária nacional da MPF, Maria Guardiola, apresentaram os inimigos “a combater, entre as jovens – o «egoísmo», o «materialismo» e o «feminismo».”[6] As futuras mulheres criadas pela MPF deveriam de ser “disciplinadas, fortes, viris sem ser masculinas, com espírito profundamente cristão e nacional, orientadas para a «acção no Lar, na família e na sociedade».”[7] Em relação a defeitos, o Boletim da MPF propunha-se a combater nas raparigas “a futilidade, o hedonismo, a soberba, a vaidade e a arrogância.”[8]


Em relação à apresentação da História, o Boletim da MPF teve desde o início uma política de mitificação da verdade histórica. Assim sendo, a História de Portugal foi mitificada de forma a construir uma tradição com base em figuras míticas e religiosas que eram “transformadas em heróis educativos que serviam de ponte entre um passado mitificado e um presente concreto.”[9] O Estado Novo compreendia bem o papel da História na construção da identidade nacional de um povo e neste contexto, a ciência histórica foi colocada ao serviço do regime em nome do bem nacional e colectivo.


Em 1947 nasceu a revista Menina e Moça (M&M) que veio substituir o Boletim da MPF. A M&M era claramente menos ideológica e politizada do que o Boletim da MPF, em grande parte isto provavelmente deve-se ao facto de estarmos já no período posterior à Segunda Guerra Mundial e o Estado Novo querer de certa forma apresentar uma imagem menos “fascista” e mais aberta e moderada às democracias liberais com que tinha agora de se aliar no mundo em plena Guerra Fria. Porém, apesar de mais moderada, a M&M continuou a servir de veículo de transmissão às raparigas dos valores essenciais do Estado Novo.


A M&M foi uma revista com pretensões de chegar a “«todas as raparigas de Portugal»”[10] de forma a transmitir a ideologia eminentemente patriótica e cristã do Estado Novo.

Segundo Irene Vaquinhas:


“Ainda que, no ano de 1950, cerca de metade da população portuguesa feminina fosse analfabeta (47,7%), essa percentagem tinha baixado relativamente à década de 1930, ano em que os recenseamentos acusavam valores da ordem dos 69,9%. Essa diminuição foi acompanhada pelo aumento do ingresso feminino nos diversos níveis de ensino, desde o primário ao universitário. Da década de 1930 à de 1950, o número de estudantes do sexo feminino passou, no ensino liceal, de 24,6% para 46,4% e, no ensino técnico, de 18,7% para 24,3%. Já no ensino superior, a percentagem de mulheres nas universidades públicas portuguesas passaria de 16,5%, nos anos 1940, para 24,9% na década seguinte, ou seja, em meados do século XX, as mulheres constituíam cerca de um quarto dos estudantes universitários.”[11]


A MPF acabou por ver chegar o seu fim com o 25 de Abril em 1974, tendo sido extinta pelo Decreto-Lei nº171/74. A última comissária nacional da MPF, Joana Bidarra de Almeida, ainda pediu para que a MPF não fosse extinta, no entanto, a comissão liquidatária que colocou fim à MPF insistiu em prosseguir implacavelmente na eliminação da mesma, porém e apesar de tudo, a mesma comissão liquidatária que determinou o fim da MPF, considerou que em comparação com a MP, a MPF tinha sido a “«organização em que menos se faziam sentir os efeitos políticos do regime fascista.»” A comissão liquidatária ainda foi mais longe e qualificou o património da MPF como sendo de “«considerável e muito mais importante do que o da masculina, o que só se pode explicar pela boa administração dos dinheiros públicos que lhe foram concedidos.»”[12]


Notas:




[1] Irene Flunser Pimentel, Mocidade Portuguesa Feminina, A Esfera dos Livros, 1ª edição, Novembro de 2007, p. 13.

[2] IDEM, op. cit., p. 13.

[3] IDEM, op. cit., pp. 14-15.

[4] Irene Flunser Pimentel, História das Organizações Femininas do Estado Novo., p. 340.

[5] IDEM, Mocidade Portuguesa Feminina., p. 51.

[6] IDEM, op. cit., p. 51.

[7] IDEM, op. cit., p. 51.

[8] IDEM, op. cit., p. 51.

[9] IDEM, op. cit.., p. 117.

[10] IDEM, op. cit., pp. 94-97

[11] Irene Vaquinhas, «Perigos da Leitura no Feminino, Dos Livros Proibidos Aos Aconselhados (Séculos XIX e XX)», Ler História, Nº 59, 2010, pp. 94-97.


[12] Irene Flunser Pimentel, Mocidade Portuguesa Feminina, A Esfera dos Livros, 1ª edição, Novembro de 2007, pp. 230-231.


João José Horta Nobre
Julho de 2012





  
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