quinta-feira, 8 de agosto de 2013

No Tempo Em Que Só Se Tomava Banho Uma Vez Por Ano...



"Não podem fazer ideia da vida que eles levam, ali. Uma vida rural simples e dura. Levantam-se cedo porque têm muito que fazer e deitam-se cedo porque têm muito pouco que pensar." - Oscar Wilde (1854 - 1900)

É bastante comum dizer-se que a vida "mudou muito" em relação ao que era há apenas um século ou até meio-século atrás. Bem, afirmar que "mudou muito" não basta para se ter mesmo a real noção do quanto a sociedade se transformou desde o tempo dos nossos bizavôs.

Já me aconteceu ouvir gente a dizer que "na Idade Média as pessoas só tomavam banho uma vez por ano". 

É verdade que na já longínqua Idade Média os hábitos de higiene não eram de forma alguma o que são hoje. Mas não é necessário recuar tanto, basta-nos recuar um século para encontrar gente que só tomava um banho anual. 

Os meus bizavôs eram do tempo em que a casa de banho ficava por detrás da oliveira e o papel higiénico era uma pedra qualquer que fosse macia o suficiente para não abrir feridas no rabo. O banho, esse momento especial, era apenas uma vez por semana no verão, uma vez por mês no inverno e havia pessoas que apenas o tomavam uma vez por ano. Gel de Banho? Era o velhinho sabão Azul e Branco ou o Feno de Portugal. Pasta de dentes não havia, depois na década de 1930 surgiu a Couto, mas isso era considerado um luxo pela maioria dos camponeses e os que a compravam normalmente só lavavam os dentes uma vez por semana "para poupar."

Frigoríficos eram outro luxo inacessível para a esmagadora maioria da população e no verão para se refrescar o vinho, as gentes rurais colocavam as garrafas dentro de cestos no fundos dos poços. Cerveja? Só nos países nórdicos e da Euopa Central. Quem fosse à taberna tinha ao seu dispôr o copo de vinho tinto, o copo de vinho branco e a aguardente de medronho ou de bagaço. Os licores doces e whiskey's eram um luxo reservado apenas para a gente fina e rica que nunca teve a mínima noção dos rigores da vida rural.

O azeite e o vinho a cuja produção alguns familiares meus se dedicaram durante gerações, eram produzidos de forma verdadeiramente artesanal. Não havia máquinas. As uvas e as azeitonas tinham de ser colhidas manualmente e espremidas e trabalhadas apenas com a força dos músculos do corpo. O pão era amassado à mão e cozido em fornos de lenha e esta por sua vez também era cortada manualmente e transportada à mão ou em carros puxados por burros.

Quando ouço meninas e meninos pipis a choramingarem nos cafés que estão muito mal na vida porque partiram uma unha ou porque os paizinhos não lhes ofereceram o último telemóvel a ser lançado, chego à conclusão de que o maior fracasso dos nossos antepassados foi o de não terem conseguido preservar para a posteridade a lembrança da dureza da vida noutros tempos.
 
As mulheres camponesas do início do século XX e anteriores viveram vidas de trabalho duro como hoje poucos têm noção. Trabalhavam de sol a sol, não havia aspiradores, champôs, máquinas de lavar, micro-ondas, nem nenhumas dessas outras maravilhas tecnológicas que o Capitalismo nos ofereceu em massa a partir da década de 1950 e que vieram a tornar as nossas vidas tão confortáveis.

Os pensos higiénicos eram paninhos de tecido que tinham de ser lavados à mão depois de sujos e consultas no ginecologista eram só para as mulheres oriundas de famílias ricas que tivessem dinheiro para pagar ao médico.

Na rua tirava-se o chapéu quando o Sr. Dr. não sei das quantas passava a pé. Os médicos, mais do que qualquer outra figura social, eram reverenciados pelo povo de forma quase fanática. Era o médico que surgia como "o último salvador" quando as mézinhas, os chás e as orações falhavam na cura da maleita que afectava o paciente. Por este motivo, as acções do médico eram vistas como acções milagrosas pela maioria das gentes que não tinham a mínima noção do siginificado da palavra "ciência". Esta reverência em relação à classe médica, a par do desprezo pelas letras (por norma despreza-se o que não se compreende...), mantém-se até hoje em Portugal.

O poço que ainda se encontra na casa dos meus pais foi escavado à mão no início do século XX por um dos meus tios do antigamente. Não havia discotecas, nem bares, nem concertos para onde ele fosse gastar as suas magras poupanças aos fim-de-semana. Havia a taberna onde se encharcava em vinho depois de vir da fábrica de cortiça onde trabalhava, ritual este que acabou por o transformar num álcoolico e o acabou por matar de ataque cardíaco já na década de 1970.

Um outro tio meu do antigamente também era operário na mesma fábrica de cortiça onde apanhou uma terrível asma devido à inalação dos químicos utilizados na lavagam da cortiça e dos pós resultantes do corte da mesma. Seguro de trabalho não havia e os médicos eram muito caros. A solução foi ir vendendo terras e desfazendo-se assim de muitos dos seus imóveis para ter dinheiro para pagar aos médicos e comprar os medicamentos. Também este veio a falecer na década de 1970, vítima de um ataque de asma fulminante.

No inverno não existiam aquecedores eléctricos, nem os sistemas de aquecimento central que hoje mantêm a alcofa quente a muitos "revolucionários de cadeirão" que passam os dias a delirar com os "amanhãs que cantam". Por este motivo, o burro e o palheiro faziam parte integral de muitas casas de camponeses, de forma a proporcionar o conforto do calor animal durante o inverno.

Em termos de carne e leite a situação era um desastre. A maioria dos camponeses só comia carne aos domingos ou quando se matava o porco. Leite só o bebiam se tivessem uma vaca leiteira ou alguém na próximidade que o vendesse acabado de espremer das tetas da vaca. Essas coisas do leite "desnatado e ultrapasteurizado" são modernices dos tempos actuais.

Nas escolas e na maioria dos locais públicos abundavam os piolhos e os parasitas intestinais. A subnutrição era lugar comum, a ignorância e o analfabetismo grassavam neste pobre povo que no máximo estudava até à 4ª classe antes de ir trabalhar para a fábrica ou na lavoura do campo. Electricidade só havia na cidade e era "coisa de gente rica". Usavam-se os candeeiros a petróleo ou a azeite cuja luz permitia que mulheres como a minha avó pudessem remendar a roupa estragada já depois do pôr do sol. Em termos de comunicações, basta dizer que uma das minhas tias só passou a ter telefone em casa já nos anos 1990.

Era assim a vida no antigamente. Não é necessário recuar até à Idade Média para nos depararmos com situações que hoje apenas encontramos nas reportagens sobre os países do Terceiro Mundo. Basta recuar até ao Portugal de 1920.

João José Horta Nobre
08 de Agosto de 2013

2 comentários:

  1. João,permita-me assim chamá-lo, vi teu blog hoje pela primeira vez, já postado uma matéria sobre Macron pelo General José Luiz Costa Sousa, meu amigo virtual no Facebook.
    Fiquei muito satisfeito em ler seus artigos. O acima é uma réplica da vida rural no interior do Brasil,ainda hoje é assim....
    Sou seu mais novo seguidor!Vida longa e próspera. Grande e forte abraço daqui do sul do Brasil.

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    1. Caro André, fico muito grato pelas suas palavras simpáticas. Obrigado e um grande abraço daqui de Portugal para si também!

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