domingo, 25 de março de 2012

A Carne de Cão na Alimentação Humana

 Carne de cão a ser vendida na China. Os chineses consomem carne de cão há milénios e esta faz inquestionavelmente parte da sua cultura gastronómica nacional.


O cão tem sido ao longo da história humana um dos animais mais úteis ao homem em diversos domínios que vão desde o auxílio no pastoreio até à condição de animal de estimação. No entanto, muitas vezes, especialmente no ocidente, não temos noção de que o cão é simultaneamente um dos animais mais consumidos como alimento ao longo da história, sendo mesmo até considerado uma iguaria culinária em diversas culturas.

O consumo de carne de cão é considerado um tabu em muitos locais, especialmente no ocidente, porém, para muitas culturas ela para além de não ser um tabu é até um elemento da gastronomia tradicional de diversos países.

As fontes históricas dão registo do consumo de carne de cão já na antiga civilização chinesa, no México pré-colombiano e na antiga roma[1], algo que indica que o consumo de carne de cão é algo que acompanha a civilização humana há milénios.

Existem túmulos do século IV que contém representações de outros animais a serem abatidos a par de cães para consumo. O acto de comer carne de cão em algumas culturas é um hábito tão básico que este chegou mesmo a entrar na linguagem. Por exemplo, o caracter sino-coreano para a expressão “justo e adequado” (yeon) significa traduzido à letra “carne de cão cozinhada é deliciosa”.[2]  

O sábio e médico grego Hipócrates, também conhecido como o “pai da medicina” elogiava a carne de cão como sendo uma fonte de força e vitalidade. Os romanos comiam “cachorro de mama”, os índios Dacota gostavam de consumir fígado de cão e até bem recentemente era possível encontrar havaianos que gostavam de comer miolos e sangue de cão. O cão pelado mexicano era a principal espécie alimentar dos aztecas.[3]

Também existiu uma boa quantidade de exploradores do passado que comeram cão por toda uma diversidade de razões. Sabe-se que o capitão Cook comeu carne de cão e o explorador Roald Amudsen foi obrigado por uma questão de fome extrema a comer os cães dos seus trenós de forma a conseguir sobreviver.

Actualmente a carne de cão é consumida em inúmeros locais espalhados por todos os continentes do mundo. No entanto, também é consumida não com objectivos nutricionais, mas com objectivos esotéricos em algumas culturas. Nas Filipinas diz-se que é bom consumir carne de cão para evitar a má sorte, na China e na Coreia há toda uma série de “mezinhas” da medicina tradicional que utilizam a carne de cão como ingrediente e na Nigéria acredita-se que a carne de cão aumenta o libido.[4]

Actualmente no Ocidente já é consumida carne de cão de forma indirecta sem que muitos saibam disso, pois a conversão de proteínas animais consideradas impróprias para consumo humano em alimento para gado e animais de estimação permite que se transformem cães abatidos em alimentos activos da cadeia alimentar. Só nos Estados Unidos são abatidos anualmente milhões de cães que posteriormente são transformados em alimento para o gado que depois é por sua vez também ele abatido e vendido para consumo ao público.[5]

As formas de abater os cães para consumo têm sido bastante cruéis ao longo da história. Por norma, acredita-se em muitos locais que a adrenalina torna a carne de cão mais tenra e por esse motivo muitos dos tradicionais métodos de abate são concebidos de maneira a provocar o máximo de pânico e sofrimento ao animal de forma a provocar a máxima produção de adrenalina antes da morte. 

Assim sendo, os cães para abate de forma tradicional são normalmente enforcados, fervidos vivos ou espancados até à morte.[6] Na China há um método particularmente cruel de abater o cão em que o animal é colocado vivo dentro de um forno, cozinhado vivo e posteriormente pendurado para secar. A tradição chinesa acredita que a tortura melhora o sabor e a textura da carne.[7]

É necessário enfatizar que estes métodos tradicionais, por norma, são apenas utilizados em zonas rurais muito localizadas e não correspondem à prática comum de abate industrial, utilizada na maioria dos casos e que é muito mais rápida e indolor para o animal.

Para além de ser consumida como uma iguaria gastronómica, a carne de cão tem servido como um substituto de outras carnes em alturas de penúria alimentar[8][9]. Durante períodos de guerra e fome o que não falta são relatos de civis e militares esfomeados que devoraram cães vadios à falta de outros alimentos mais “normais”. O aumento do consumo de carne de cão na Alemanha na década de 1920 devido à crise económica que se vivia na época é apenas um caso entre muitos outros.

Os defensores do consumo de carne de cão e há muitos, argumentam que esta para além de ser muito nutritiva, é simultaneamente uma parte da sua cultura que pode e deve ser preservada. Por outro lado, argumentam ainda que não há diferença entre o consumo de um cão e o consumo de um porco ou uma vaca, pois são as culturas que originam os tabus em relação aos diversos animais e alimentos.

Do ponto de vista científico, não há nada que indique que a carne de cão é inferior à do porco, nem há nada que demonstre uma superioridade do cão em relação ao porco como animal. Os porcos, tal como os cães são animais brincalhões e espertos, aliás, o QI de um porco é por norma superior ao de um cão, portanto, o único factor que impede o consumo de carne de cão por parte de muitas pessoas é um factor de origem cultural.

Em termos religiosos, não há nada na religião Cristã que impeça o consumo de carne de cão, no entanto, a religião Judaica e Islâmica impõem aos seus seguidores normas alimentares que proíbem o consumo de carne de cão por este ser considerado um animal sujo nessas confissões.[10]

Ao contrário do que muitos opositores do consumo de carne de cão dizem, esta não representa nenhum risco para a saúde humana se for consumida moderadamente e cozinhada de forma correcta. A carne de cão é extremamente nutritiva e rica em Vitamina B1, Fósforo e Ferro. No entanto, é necessário ter cuidado com o consumo do fígado do cão, pois este é extremamente rico em Vitamina A e o seu consumo excessivo pode originar uma vitaminose que em casos extremos pode vir a revelar-se fatal.[11]

Por outro lado, já houve casos de transmissão de raiva para seres humanos através do consumo da carne de cão. Há pelo menos dois casos registados na China, outro no Vietname e duas mortes confirmadas nas Filipinas.

O facto é que o consumo da carne de cão resulta de vários factores que podem ser de ordem cultural, escassez de outras carnes ou até a crença na medicina tradicional de que o consumo de carne de cão pode ter benefícios medicinais.[12] [13]

Aqueles que criticam o consumo de carne de cão por norma argumentam que é moralmente errado matar e comer animais que são muito emocionais e inerentemente amigáveis para com a humanidade. Por outro lado, os críticos também colocam em destaque a crueldade dos métodos de abate que de facto podem ser em determinados casos excessivamente cruéis e dolorosos para o animal.[14] [15] [16] [17]

No entanto, os defensores do consumo de carne de cão (e há muitos) contra-atacam argumentando que esta faz parte da sua cultura e que portanto, os que pretendem banir o consumo da carne de cão são defensores do imperialismo cultural e da intolerância.[18] [19] [20] Acima de tudo, pode-se colocar a seguinte pergunta: 

“se é moralmente aceitável matar e comer um porco ou uma vaca, mesmo sabendo que o porco e a vaca são animais emocionais e amigáveis, então porque é que é moralmente errado matar e comer um cão?”

O facto é que o consumo da carne de cão está tão imbuída nas culturas gastronómicas de determinados povos, que mesmo que o seu consumo possa diminuir, é extremamente difícil que ela venha a desaparecer por completo.

A título de curiosidade deixo aqui uma receita tradicional filipina:

CÃO GUISADO À CASAMENTO
Primeiro mate um cão de tamanho médio, depois chamusque-lhe o pelo. Remova cuidadosamente a pele enquanto estiver quente e guarde-a (pode ser usada em outras receitas). Corte a carne em cubos de 2 cm. Marine a carne numa mistura de vinagre, pimenta preta em grão, sal e alho durante duas horas. Frite a carne em óleo numa wok grande em lume aberto, depois junte cebolas e ananás picados e saltei até ficar tenra. Deixe molho de tomate e água a ferver, junte pimenta verde, louro e molho picante. Tape e deixe cozinhar sobre brasas quentes até a carne ficar tenra. Junte puré de fígado de cão e deixe cozinhar mais 5-7 minutos.[21]
 
Notas:

[1] SCHWABE, Calvin W., Unmentionable Cuisine, University of Virginia Press, 1979, p. 168.
[2] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 32.
[3] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 32.
[4] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 32.
[5] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 33.
[6] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 33.
[7] ROUBIS, Chris, China’s Dog Meat Animal Cruelty, http://www.chrisroubis.com/category/chinas-dog-meat-animal-cruelty/, data da última consulta: 30/11/2011.
[8] TIME MAGAZINE, Dachshunds Are Tenderer, 25 de Novembro de 1940, http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,884181,00.html, data da última consulta: 26/11/2011.
[9] MAWSON, Douglas, The Home of The Bizzard, Project Gutenberg, Capítulo XIII, 24 de Março de 2009, http://www.gutenberg.org/files/6137/6137-h/6137-h.htm#2HCH0013, data da última consulta: 26/11/2011.
[10] WIKIPEDIA, Dog Meat, http://en.wikipedia.org/wiki/Dog_meat, data da última consulta: 27/11/2011.
[11] SHEARMAN, D. J., Vitamin A and Sir Douglas Mawson, British Medical Journal, 4 de Fevereiro de 1978, http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1602734/?tool=pmcentrez, data da última consulta: 27/11/2011.
[12] MURRAY, Senan, Dogs' dinners prove popular in Nigeria, BBC NEWS, 6 de Março de 2007, Abuja, http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6419041.stm, data da última consulta: 30/11/2011.
[13] TIME MAGAZINE, Dachshunds Are Tenderer, 25 de Novembro de 1940, http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,884181,00.html, data da última consulta: 26/11/2011.
[14] ANIMAL FREEDOM, Comments on Action “Stop The Dog-Meat Trade in Korea, http://www.animalfreedom.org/english/column/dogmeattrade.html, data da última consulta: 30/11/2011.
[15] WIKIPÉDIA, Carne de Cachorro, http://pt.wikipedia.org/wiki/Carne_de_cachorro, data da última consulta: 30/11/2011.
[16] WIKIPÉDIA, Carne de Cachorro, http://pt.wikipedia.org/wiki/Carne_de_cachorro, data da última consulta: 30/11/2011.
[17] DOGBIZ, Koreans at Their Worst – Killing and Eating Dogs and Cats, http://www.dogbiz.com/dont-eat-dog-meat.htm, data da última consulta: 30/11/2011.
[18] SALETAN, William, Wok The Dog – What’s Wrong With Eating Man’s Best Friend?, Slate, 16 de Janeiro de 2002, http://www.slate.com/articles/news_and_politics/frame_game/2002/01/wok_the_dog.html, data da última consulta: 30/11/2011.
[19] ZIHNI, Ahmed, Dog Meat Dilemma, Internet Archive – Wayback Machine, http://web.archive.org/web/20070811115017/http://www.sunysb.edu/writrhet/philosophy/handbook/essaycontest/2004essaywinners/2004+Ahmet+Zihni.htm, data da última consulta: 30/11/2011.
[20] FEFFER, John, The Politics of Dog, The American Prospect, 13 de Maio de 2002, http://prospect.org/article/politics-dog, data da última consulta: 30/11/2011.
[21] FOER, Jonathan Safran, Comer Animais, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, p. 34.

João José Horta Nobre
Março de 2011
 
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